“Perseguidas, mas não abandonadas”: mães também são afetadas pelo bullying 

“Perseguidas, mas não abandonadas”: mães também são afetadas pelo bullying 

O bullying divide opiniões. Se por um lado, há quem o despreze, dizendo que “um pouco de zoação” não faz mal a ninguém e faz parte da vida, há também os que afirmam que “qualquer zoação é prejudicial” e não deve ser permitida jamais. O fato é que o conceito muitas vezes é mal entendido. Bullying, por definição, é “um comportamento agressivo, intencional e repetitivo, que ocorre em uma relação marcada por desequilíbrio de poder, na qual uma criança ou adolescente é exposto de forma contínua a ações negativas por parte de um ou mais pares” (Dan Olweus). Percebe? Não é um evento pontual, ou algo com uma constância esporádica. Uma coisa pequena e “chatinha”. É uma questão de força desigual. Algo contínuo, constante. Algo marcante mas que por algum motivo passa desapercebido do “sistema”. (Dan Olweus é um psicólogo norueguês reconhecido internacionalmente como pioneiro nos estudos sobre bullying, sendo uma das principais referências na compreensão e prevenção desse fenômeno.) 

Mas, para além da definição técnica, o bullying também se manifesta como uma experiência emocional profunda não apenas para a criança que sofre, mas também para os pais que assistem, muitas vezes sem saber como intervir, ao sofrimento do filho. E aqui chegamos ao ponto 3 da nossa série sobre sofrimento baseada em 2 Coríntios 4:8-9 — que conversa com o tema do Mutirão Mundial de Oração 2026: Nas mãos de Deus cabe tudo! Acesse e descubra mais sobre esse movimento que, neste ano, está tratando sobre as dores das crianças e o grande poder de Deus, que as pode consolar.  

De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados, ficamos perplexos, mas não desesperados, somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos. (2 Coríntios 4:8-9)

Hoje vamos ouvir uma mãe que está passando por um processo de bullying junto com o filho. Ele está no ensino fundamental e gosta mais das coisas intelectuais do que das práticas esportivas. E aí já viu: alguns colegas o perturbam porque “ele não corre o suficiente” e fazem chacota com ele durante as brincadeiras de velocidade física. O menino começou a demonstrar vontade de não mais ir às aulas de educação física, não querer brincar no intervalo das aulas, expressar relatos de não ser um bom amigo e estar acima do peso. Entrevistei essa mãe, pois este lugar do bullying, da perseguição desmedida, pra criança, é muito passível de trazer junto a sensação de abandono, na hora do problema enfrentado. E também, é comum ouvir relatos de mães que se sentem impotentes nessas horas. Assim, através da vida dela, vamos pensar a prática do que poderia significar que somos perseguidos, mas não abandonados, na prática cristã: 

  1. Em que momento você começou a perceber que seu filho não estava apenas passando por dificuldades comuns, mas se sentindo de alguma forma atingido nas relações com outras crianças?

Quando ele chegava da escola com falas de humilhação, desvalorização sobre ele mesmo. Ele começou a trazer dificuldades importantes nas relações com os amigos e desejo de se afastar cada vez mais, porém as falas negativas sobre ele e a imagem ruim que ele estava construindo sobre ele, foi o que me chamou mais atenção. Quando fui conversar para entender de onde vinha esse olhar, percebi que ele estava reproduzindo a fala de outros colegas.

  1. O que acontece dentro de você quando percebe seu filho sendo alvo de risadas, exclusões ou comentários que o machucam?

Me sinto impotente, vulnerável. A dor dele doi em mim.

  1. Em algum momento você já se sentiu sozinha ao tentar ajudar seu filho com isso? Como foi essa experiência para você?

Me sinto sozinha em relação a isso o tempo todo. Às vezes me sinto sem forças e sem saber o que fazer.

  1. O que você percebe que ajuda seu filho a não se sentir sozinho, mesmo quando está passando por situações difíceis com outras crianças?

O amor, o acolhimento, o abraço, ouvir sem julgamento e a troca de experiências

  1. Ao longo desse processo, o que mudou na forma como você se posiciona ou se percebe como mãe diante dessas situações?

Eu aprendi ao longo dessa experiência a ouvir, a me desarmar, a conversar, a pedir ajuda e a não minimizar o sofrimento de uma criança.

Essa circunstância do bullying, que tantas famílias enfrentam, nos leva a encarar que as questões difíceis da vida muitas vezes não são possíveis de serem evitadas. É duro, mas é isso que as relações na escola muitas vezes já ensinam a criança. E até o fim dos nossos dias encaramos esta realidade. E assim, diante de tudo isso, talvez a melhor pergunta para ensinar à criança a pensar não seja “como evitar o sofrimento?”, mas “como atravessá-lo sem que ele defina quem somos?” Somos perseguidos algumas vezes, sim. Mas essa é só parte da história. Não somos abandonados!

O bullying pode, sim, marcar profundamente uma criança — especialmente quando suas fragilidades são expostas em um ambiente que deveria ser de pertencimento. Mas ele não precisa determinar sua identidade. Quando há um adulto disponível, que escuta, acolhe, nomeia e ajuda a organizar a experiência, a criança deixa de estar sozinha diante da dor. E isso muda o jogo todo. A vida pode ser enfrentada, encarada. O caminho é duro, mas é possível. 

Ser “perseguido, mas não abandonado” ganha forma concreta quando há presença emocional. Quando um pai ou uma mãe se dispõe a compreender, a validar sem reforçar rótulos, e a ajudar o filho a construir uma visão mais justa de si mesmo — que inclui suas dificuldades, mas não se resume a elas. Ah, as crianças que têm esse adulto por perto! Quão mais fácil são de se achegarem ao Salvador que também sofreu! 

Nesse caminho, a busca por orientação parental pode ser uma ferramenta valiosa. Nela, os responsáveis aprenderão a desenvolverem estratégias mais conscientes de manejo, favorecendo o fortalecimento da autoestima da criança, a discriminação entre o que é dela e o que é projetado pelos outros, e a construção de respostas mais seguras diante das situações sociais. Ensaios comportamentais, conversas guiadas e espaços de reflexão podem, aos poucos, ajudar a criança a se posicionar, a se proteger e a se reconhecer para além das críticas que recebe.

Há, sim, um caminho possível. Não de ausência de dor, mas de transformação dela. Um caminho em que a criança aprende que pode sentir, pode se afetar, pode até se entristecer — mas não precisa se definir a partir do olhar de quem não a conhece verdadeiramente. (Ah, o amor gracioso de Deus por nós, que nos define, limitados como somos e grande como Ele é! O pai e a mãe que aprende a andar nesse amor, transborda. Passo a passo. Mas caminha! Aleluia!)

Se você, como pai ou mãe, tem se sentido sozinho(a) diante do sofrimento do seu filho, talvez este seja o momento de buscar ajuda. A orientação adequada não tira de você o seu lugar — pelo contrário, te fortalece para ocupá-lo com mais segurança, clareza e presença. Você não precisa atravessar isso sozinho(a). E o seu filho também não.

Mesmo quando eu andar
por um vale de trevas e morte,
não temerei perigo algum, pois tu estás comigo;
a tua vara e o teu cajado me protegem.
Salmo 23:4

 

Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas

 

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