Em março de 2022 o site Christianity Today publicou um artigo em seu blog sobre filhos de missionários que vivenciam uma experiência diferente dos pais em relação ao ministério. O artigo The missionary kids are not alright (Os filhos de missionários não estão bem) trata das crianças que muitas vezes crescem entre propósito e dor, carregam perdas, confusão de identidade e traumas costumeiramente invisíveis para seus próprios pais. São crianças que aprendem a ser fortes e a terem compaixão das dores do mundo, mas sem ainda terem entendido bem as próprias fraquezas e dores. (É importante dizer que filhos de líderes nas igrejas de modo geral tendem a ter essas questões também, em uma escala menor.) Por isso, neste nosso último texto da série de 2 Coríntios 4:8-9 lembraremos dessas crianças que podem se sentir abandonadas em seus trajetos:
De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados, ficamos perplexos, mas não desesperados, somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos. (2 Coríntios 4:8-9)
Como elas podem ter a sensação de que não serão destruídas, mesmo quando se sentirem tão sozinhas? Como podem entender que não são o que sentem, somente? Vamos ouvir o testemunho de vida de Elsie Gilbert, uma das pessoas envolvidas na fundação da nossa Rede Mãos Dadas. Filha de missionários, teve sua vida, hoje voltada às dores e cuidados de crianças do Brasil e do mundo, impactada pelo ministério de seus pais. Temos muito a aprender com essa entrevista. Vamos juntos:
1. Elsie, crescer como filha de missionários te colocou, desde cedo, em contato com realidades intensas. Em que momentos você se sentiu “abatida”, mesmo estando dentro de um propósito maior? Aliás, você entendia sobre esse “propósito maior” que seus pais estavam inseridos?
Meus pais se conheceram em um curso preparatório missionário e, após três anos de formação, foram enviados para atuar em uma aldeia indígena no interior de Pernambuco. Eu nasci numa pequena cidade vizinha à aldeia e vivi a minha infância naquele lugar. Eu ouvi a música de Luiz Gonzaga, comi beiju de tapioca, acompanhei minha mãe à feira todos os sábados, cacei preá com meu primo, ouvi causos do Lampião e da Maria Bonita. A partir da memória que tenho hoje dos meus primeiros 9 anos de vida, minha infância foi maravilhosa. A realidade do povo ao qual meus pais se dedicavam era, de fato, dura; mas o espírito desse povo era valente. Meus pais os amavam, e eu herdei a admiração e respeito por eles. Isto não era difícil.
O difícil era conviver com a vida fora dali. Os olhares do pessoal da igreja em São Paulo nos davam – parece que sentiam pena de nós. As falas de alguns familiares que achavam que de alguma forma nossos pais tinham diminuído nossas chances de sermos bem sucedidos na vida. As falas de professores em São Paulo ou Minas Gerais que vinham com muita desinformação sobre o sertão nordestino e o seu povo. Eu ficava indignada e desmentia a professora como quem diz: “Você não sabe do que está falando”.
O filho de missionário se sente abatido sempre que não se vê compreendido e percebe que é impossível cruzar o vão existente entre as duas realidades às quais está exposto.
2. Muitas crianças de famílias missionárias ou pastorais aprendem a “ser fortes” muito cedo. Como você percebe hoje o impacto disso na forma como lidou (ou não lidou) com suas próprias dores?
Acho que mais do que “ser forte”, eu fui encorajada a “ser flexível”. Um objeto pode ter muitos usos (numa busca rápida pela internet, eu averiguei onze usos muito distintos para uma cuia ou cabaça, por exemplo); uma expressão que no sul é corriqueira e no nordeste pode ser um palavrão; não há um jeito só de se fazer as coisas; a mesma pessoa pode ser “rica” num lugar e “pobre” no outro. Nada é absoluto, nada é permanente. Isto sempre me fez questionar os “dogmas” da fé cristã. Digo dogmas entre aspas porque as pessoas, em sua maioria, brigam por tradições, usos e costumes e na briga forçam suas posições para serem vistas como dogmas inegociáveis. Isto me levou à várias discussões teológicas nas quais, ao se perceberem em desvantagem, as pessoas queriam me rotular de rebelde, liberal, alguém que estava prestes a abandonar a fé cristã. Nesta fase da minha vida, eu fui acolhida por um outro filho de missionário que já tinha passado pela mesma coisa e conseguia entender de forma profunda o que eu estava questionando.
Filhos de missionários precisam ser ouvidos com profundidade; eles enxergam outros pontos de vista que talvez ainda não tenham sido considerados…
3. O artigo fala sobre filhos de missionários que, na vida adulta, revisitam sua história com perguntas difíceis. Você já passou por esse processo? O que te ajudou a não se sentir “destruída” no meio dessas revisões?
Sim, já fiz muitas revisões e perguntas difíceis. A principal delas foi sobre a decisão da agência missionária na qual meus pais trabalhavam de manter escolas em forma de internato para os filhos de missionários que estavam no campo. Neste formato, do lado estadunidense, as crianças moravam em um campus no qual recebiam a educação obedecendo currículo norte-americano, em inglês. Do lado brasileiro, os filhos de missionários eram abrigados em uma espécie de casa-lar onde um casal de missionários exercia a função de pais sociais. As crianças frequentavam as escolas da cidade.
As chances de as coisas darem errado nestes ambientes já é algo muito estudado e comprovado. A criança se sente abandonada pelos pais é levada, ainda, a pensar que foi Deus que assim o quis. Os pais sociais são sobrecarregados e agem a partir dos seus conhecimentos e de suas vivências em suas famílias de origem em relação à parentalidade, disciplina, segurança, afeto, etc. A partir dos meus 10 anos de idade, meus pais se tornaram os pais sociais. Eles decidiram fazer duas coisas que me marcaram profundamente: (1) tratar seus filhos como crianças atendidas para não gerar reclamações de parcialidade e (2) usar seus conhecimentos sobre disciplina nos “filhos dos outros”.
Num certo sentido, todos nós somos vítimas dos desacertos dos nossos pais. Uma ideia equivocada tem vida longa e gera muitos frutos podres. Um dos adolescentes abrigados abusou sexualmente do meu irmão que na época tinha entre 5 e 7 anos. Meus pais nunca tomaram conhecimento deste abuso, e, consequentemente, o garoto nunca foi confrontado. Nós sobrevivemos e superamos as nossas infâncias.
É certo também, que o amor dos nossos pais nunca é perfeito. Descobrimos isso quando nos tornamos pais e mães… Eu fui abandonada pela minha mãe quando ela começou a me tratar como as outras crianças que viviam conosco. Minha mãe nunca teve a intenção de me abandonar, o que ficou muito claro na carta que ela escreveu me pedindo perdão muitos anos depois. As duas coisas são verdadeiras, o abandono e a não intenção, ao mesmo tempo.
As principais ideias que um filho de missionário adulto precisa enfrentar são: (1) por um lado, a de que tudo que seus pais fizeram foi com a aprovação e orientação de Deus, ou que, (2) por outro lado, tudo que fizeram foi equivocado, longe da aprovação de Deus. Eles erraram e acertaram, ao mesmo tempo! Separar o que era orientação de Deus e o que era desacerto da parte dos meus pais tem sido uma jornada longa mas rica, eu diria até, redentora.
4. Na sua experiência, o que mais faltou – ou o que teria sido importante – para que você, ainda criança, se sentisse mais vista, ouvida e cuidada emocionalmente?
Conversas a sós com meus pais. Dos 10 aos 14 anos, eu não tenho nenhuma lembrança de tempo a sós com a minha mãe. Eu só lembro dela na cozinha, na lavanderia, na sala de estudos – cozinhando, lavando roupas, ajudando as crianças com suas tarefas de escola. Eu lembro do meu pai, neste período, como o motorista da Kombi que nos levava para a escola, o líder do cultinho familiar, o disciplinador dos meninos…
Todo filho de missionário precisa saber que ele não é um projeto ou parte do ministério de seus pais. Ele precisa saber que é uma pessoa, que pensa, que vive, que vê e que deseja coisas únicas.
5. Para pais que estão no ministério hoje, tentando equilibrar chamado e cuidado com os filhos: que sinais eles não podem ignorar quando seus filhos começam a demonstrar sofrimento?
Nenhum… Nenhum sinal pode ser ignorado. Mas, também, nem todo sinal é grave. E como este é um campo imenso, eu diria que o que os pais mais precisam é melhorar sua escuta, tanto da voz do Espírito Santo quanto dos sinais que seus filhos emitem. E o que nos impede de ouvir os dois, a Deus e a nossos filhos? Trabalho, agenda, pessoas, muita atividade, muita vontade de ganhar o mundo para Deus. Deus não nos pede para ganhar o mundo todo para Ele. Ele nos pede para andarmos no mundo com Ele — caminhar, não correr! Se o missionário resolver no seu coração que andará no compasso das crianças, ele vai ouvir coisas maravilhosas tanto de Deus como do caminho que Deus está fazendo com seus filhos!
Todo filho de missionário precisa saber que a voz de Deus é diferente da voz de seus pais. Os pais precisam parar de falar em nome de Deus, isto faz mal.
6. O texto bíblico fala de ser “abatido, mas não destruído”. Olhando para sua história, onde você enxerga a ação de Deus te sustentando, mesmo quando você não entendia o que estava vivendo?
No período no qual eu sofri o trauma do abandono – pais fisicamente presentes mas emocionalmente ausentes – eu adquiri o hábito de caminhar sozinha por um eucaliptal que ficava atrás da nossa casa. Eu passava horas lá e voltava refeita. Muito tempo depois, num momento de meditação em silêncio, eu ouvi Jesus dizer para mim sobre este bosque: “Eu ia com você para lá, eu gostava de andar com você!” Esta revelação trouxe grande cura para mim, a consciência de que o Rei do universo, passeava comigo, no meu caminho, no meu compasso, na minha dor!
O quanto antes a chamada “criança de terceira cultura” (filha de missionários) conseguir entender que Deus é maior que suas dúvidas, que Ele não se assusta com suas raivas e medos, que Ele é o Bom Pastor que a corrige e ensina com amor perfeito, mais essa criança poderá perceber o sustento Dele em meio ao ministério de seus pais. A sensação de “destruição” que o versículo fala – “abatidos, mas não destruídos” – provavelmente durará só um tempo em sua vida. Tempo duro e difícil, possivelmente. Porém, tempo que sempre coube nas mãos de Deus. Lembro de José do Egito, que já adulto, olhando para sua história tão difícil, consegue dizer aos irmãos que o haviam feito sofrer:
“Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos. Por isso, não tenham medo. Eu sustentarei vocês e seus filhos. E assim os tranquilizou e lhes falou amavelmente.” (Gênesis 50:20-21)
Nas mãos de Deus cabe tudo; tudo mesmo! Cabe um caminho difícil, cabe a sensação de abandono. Ele dá um novo significado e transforma tudo em bem, pra glória Dele! As crianças precisam saber! Aleluia! (Clique no link verde acima e participe do Mutirão Mundial de Oração 2026 com a Rede Mãos Dadas. Vamos juntos!)
Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas
