Quando uma criança ou adolescente que aprendemos a amar está passando por uma situação crítica, é natural querer ajudar e ver caminhos para sanar o problema o mais rápido possível. A gente pensa, se envolve, tenta encontrar meios, soluções e respostas. E se isso já aconteceu com você, você deve lembrar e saber que, quem se envolve de verdade logo percebe que as questões que às vezes parecem óbvias demais normalmente têm o “buraco mais embaixo”; têm outras circunstâncias e pessoas envolvidas na complicação – questões estas que geralmente se percebem fora do alcance de quem está tentando ajudar. Problemas são multifacetados. E envolvem pessoas.
Hoje quero falar sobre essa “engrenagem de funcionamento” do processo de ajudar uma criança ou adolescente que precisa. Essa é a realidade dos pais que leem esse blog e dos tantos educadores que temos aqui, certo? Vamos falar desse lugar em que a preocupação com a criança amada está ali, porém pode começar a dividir espaço com outra coisa delicada: a necessidade de querer resolver o problema. Parecem a mesma coisa, mas a diferença sutil muda todo o quadro. A preocupação com quem sofre me faz buscar entender melhor as circunstâncias, procurar enxergar melhor o que ainda não consigo ver, quero ouvir mais, explorar. “Querer resolver” a coisa, implica em “pensar o problema do meu ponto de vista”, em “precisar me perceber ouvido pelos envolvidos”, em “ser considerado para resolver a questão”, em “acertar”, em fazer “do jeito certo”.
Aqui o foco-problema da questão vai se deslocando.
Aquilo que antes era “Como eu posso ajudar?” vai virando, quase sem se perceber, “Como eu me posiciono aqui?”, “Como eu mostro que estou certo?”, “Como eu não fico de fora da decisão final?”
Algo parecido aconteceu com os discípulos de Jesus e um grupo de escribas, diante de um menino endemoniado:
¹⁴ E, quando se aproximou dos discípulos, viu ao redor deles grande multidão, e alguns escribas que disputavam com eles.
¹⁵ E logo toda a multidão, vendo-o, ficou espantada e, correndo para ele, o saudaram.
¹⁶ E perguntou aos escribas: Que é que discutis com eles?
¹⁷ E um da multidão, respondendo, disse: Mestre, trouxe-te o meu filho, que tem um espírito mudo;
¹⁸ E este, onde quer que o apanhe, despedaça-o, e ele espuma, e range os dentes, e vai definhando; e eu disse aos teus discípulos que o expulsassem, e não puderam.
¹⁹ E ele, respondendo-lhes, disse: Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei ainda? Trazei-mo.
Marcos 9:14-19
Percebe? Os discípulos de Jesus disputaram com os escribas para ajudar o menino, mas nenhum dos dois grupos ajudou o garoto de fato. E, infelizmente, essa situação de “disputa ineficaz” acaba sendo bem comum entre educadores e familiares. Como dizer que os dois grupos da passagem bíblica não se importavam com a criança? Provavelmente se importavam e queriam provar seu próprio ponto para resolver a questão. E normalmente é assim, queremos fazer o melhor. Porém, o que Jesus quis mostrar com muita firmeza, principalmente aos seus discípulos, é que é preciso reconhecer que situações difíceis fazem não só quem sofre sentir dor, mas também revelam os limites de quem poderia ajudar. Problemas nos desorganizam por dentro – sofredores e cuidadores. Só Deus tem todas as soluções em si. Nós precisamos buscá-las fora de nós mesmos, mesmo que tenhamos as melhores intenções.
Porém, quando estou muito ocupado em sustentar meu lugar de “solucionador do problema”, a minha escuta diminui. Estou me esforçando pra raciocinar na resolução, na solução da questão, minha energia está em meu próprio pensar. Minha atenção ao mundo externo naturalmente tende a diminuir. E o problema é que sem escuta da realidade o cuidado começa a falhar. Aqui, conversas ficam mais tensas. Pessoas se interrompem mais. Cada um que se envolve pra resolver passa a defender o seu ponto de vista e às vezes até com bons argumentos, mas com pouco espaço para o outro. E a coisa não sai do lugar, pois: quem está realmente ouvindo e enxergando as demandas daquele que precisa de ajuda?
Nessas situações, enquanto adultos tentam organizar as situações complexas, não é raro que aquele que está sofrendo comece a se sentir cada vez mais sozinho. O sofrimento que deveria diminuir pode mudar de forma, e ainda aumentar, como se agora precisasse encontrar meios de ser visto, ouvido e compreendido. Sim, os cuidadores podem cair na armadilha de dificultar o próprio cuidado. Não por falta de capacidade e boa intenção. Mas por falta de espaço interno buscar fora de si, para escutar o outro lado. Até mesmo para a fé Naquele que pode trazer soluções mais claras. Talvez, nesses momentos, o mais difícil – e também mais necessário – seja diminuir um pouco o volume da nossa própria voz para conseguir escutar de verdade. Escutar o outro. O Outro. E escutar o processo. Escutar até aquilo que ainda não faz sentido.
Nem sempre vamos concordar. Nem sempre vamos ter a melhor resposta. Mas, muitas vezes, o que mais ajuda não é ter razão, mas estar mais presente, de um jeito mais aberto, mais disponível. Pois, no fim, o que realmente importa não é quem conduziu melhor, quem acertou mais ou quem teve razão. Mas sim se, no meio de tudo isso, aquele que precisava de suporte – que é mais novo e inexperiente da vida – conseguiu enfrentar a questão menos sozinho e percebendo o amor Daquele que pode solucionar todas as coisas, a Seu tempo e do Seu modo.
Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas.
