A criança que está em um processo difícil 

A criança que está em um processo difícil 

Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. (Salmo 23:4)

No Salmo 23, ouvimos o relato de uma ovelhinha que se sente muito segura por ser ovelha do Bom Pastor. Ela conta que no caminho difícil e ardiloso do vale da sombra da morte, ela não tem medo. E o motivo é claro: ela não está só – Ele, o Bom Pastor, está lá. Com ela. Ele não a deixa no problema. O problema é dele também. Seguem o caminho difícil todo, juntos. Ele tem uma vara na mão e ora também um cajado. O cuidado vem através deles, pois a vara corrige os passos opiniosos e possivelmente voluntariosos e ao mesmo tempo o cajado a mantém no caminho, segura. E assim vão. 

Eles estão juntos na estrada. 

Há problemas que as crianças passam que são pontuais e práticos até, podem ser resolvidos rapidamente. Outros não. Outros se parecem mais como um caminho que precisa ser atravessado. Como passar por um vale. Esses vales vêm, não tem jeito. Vêm para todos. Dias difíceis, complexos, com relações que trazem dor de alguma forma. E a criança então se depara com uma trilha estranha e difícil, grande demais para seu tamanho. Ela tem que passar por ela, é o único caminho que a vida apresenta. Resta saber se ela vai passar por ele sozinha ou acompanhada. 

Nos primeiros anos de vida, crianças naturalmente procuram os adultos quando estão assustadas, tristes ou confusas. Elas esperam cuidado. Porém, conforme vão crescendo vão percebendo que nem sempre há espaço dentro de casa para todas as emoções. Há circunstâncias mais fáceis de lidar, como alegria, conquistas e bom comportamento. Outras emoções — tristeza profunda, frustração ou insegurança — acabam gerando desconforto nos adultos. Quando isso acontece repetidamente, não é raro vermos a criança que aprende que é melhor aprender a resolver as coisas sozinha.

E então as ovelhinhas passam a desenvolver uma espécie de força precoce (o que é um contrassenso). São as “crianças fortes”. Elas aprendem não incomodar, não demonstrar tristeza com frequência, a lidar sozinhas com frustrações, a parecer maduras e independentes. Algumas até “explodem”, mas já “se resolvem”. Para os adultos, essa criança muitas vezes parece “bem resolvida” – e ela é sempre lembrada disso, todos comentam. 

E assim vai crescendo a criança que tem dificuldade real em pedir ajuda. 

É essa criança que, quando passa por um problema realmente difícil na vida, provavelmente acabará por ouvir: “Você precisa reagir”, “Tente pensar positivo”, “Você tem tantas coisas boas”, “Isso vai passar logo”, “Você é forte, vamos lá”. São mensagens positivas de carinho, mas que passam uma mensagem embutida: “Seu sofrimento precisa desaparecer rapidamente”. E alguns processos não desaparecem assim.

Por exemplo, quando falamos do processo depressivo (ou poderíamos falar sobre qualquer outra questão emocional difícil), não temos como falar simplesmente sobre “tirar o sintoma”. A pessoa precisa compreender o que está acontecendo dentro dela (há um motivo), nomear emoções difíceis (normalmente ainda desconhecidas), reorganizar pensamentos, recuperar gradualmente energia e sentido (que foram perdidos por alguma razão). Esse processo tem avanços e recuos. Alguns dias parecem melhores e outros voltam a ser difíceis. Isso não significa que o tratamento não está funcionando. Significa que a pessoa está atravessando o processo. E é aí que a ovelhinha pode se perceber sozinha no vale, ou com um bom pastor. 

A presença no vale da sombra da morte encara a estrada difícil. Exige paciência com o tempo necessário para chegar do outro lado. A presença no vale da sombra da morte garante espaço para escutar e conversar durante o caminho. A presença no vale da sombra da morte assimila as emoções e as valida – pois está passo a passo sentindo-as lado a lado. A mensagem aqui é “Eu sei que não está fácil. Mas você não precisa e não vai passar por isso sozinho.”

Um ponto importante aqui: se o sofrimento emocional começa a interferir na vida da criança ou do adolescente — afetando sono, rotina, relações ou motivação — buscar apoio psicológico pode ser um passo importante. A terapia oferece um espaço seguro para que o jovem: 

  • fale livremente
  • compreenda melhor suas emoções
  • desenvolva novas formas de lidar com o que sente

E, muitas vezes, também ajuda a família a entender melhor como apoiar esse processo.

Ah, que nós, educadores e pais, possamos caminhar com o Bom Pastor e, com a ajuda Dele, possamos aprender atravessar os vales da vida com as ovelhinhas do Senhor, como peregrinos que enfrentam difíceis realidades com sabedoria. E elas saibam que não estão sós. 

 

Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas.

Enviar Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *