A força dos nós: a importância de a igreja atuar como uma rede de proteção

Crianças atendidas pelo Centro Social Bálsamo

Crianças atendidas pelo Centro Social Bálsamo

Camará é um distrito na zona rural de Caucáia, cidade a 32 quilômetros de Fortaleza. No distrito, 90% dos adultos são analfabetos e não existe água potável. A energia elétrica só chegou lá há oito anos. No verão a seca castiga, durante as chuvas, os buracos e a lama impedem as crianças de chegarem às escolas.

Em 2002, surgiu ali uma pequena congregação, como fruto de um retiro espiritual da Igreja Batista da Graça, em Fortaleza. O pastor Herbert Nogueira, responsável por essa iniciativa, sempre teve uma preocupação integral com o ser humano: “Não se pode pregar o evangelho sem que se tenha um trabalho sério voltado para a comunidade”.

Assim que a liderança da congregação identificou as necessidades, parte do terreno da igreja foi dedicado à construção de duas salas de aula com banheiro e um refeitório. Nesse espaço, 105 crianças entre 5 e 10 anos recebem reforço escolar e complementação alimentar e alguns adultos têm aulas de alfabetização.

Provavelmente o leitor não vê muita dificuldade em se realizar esse trabalho. Mas, para uma jovem congregação na zona rural do Ceará, esse é um esforço gigantesco que só seguiu adiante por causa do sentimento de urgência da liderança local. A fome e o analfabetismo não poderiam esperar que a congregação se fortalecesse em uma grande igreja, pois afetavam a vida de crianças e adultos, imediatamente.

No entanto, uma congregação não conseguiria fazer isso sozinha. Para que hoje crianças e adolescentes estejam seguros e bem cuidados em Camará, foi necessária a ação de uma rede de apoio bem organizada. Foram o suporte técnico e financeiro da Federação das Entidades de Projetos Sociais (FEPAS), a ajuda de membros da igreja, doações particulares e de empresas, que desenvolveram e consolidaram o trabalho, levando à criação do Centro Social Bálsamo.

Nesse caso, a rede que transformou um sentimento de urgência em algo concreto é formada pela congregação, pela Igreja Batista da Graça, pela denominação à qual ela está ligada, a Convenção das Igrejas Batistas Independentes (CIBI) e pela FEPAS, que pertence à CIBI.

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No intervalo, as crianças do projeto brincam no terreno da igreja adaptado em campo de vôlei

Rede dentro de rede
O que diferencia a FEPAS de outras organizações é que ela nasceu da vontade da liderança de uma denominação cristã evangélica e mantém até hoje um vínculo estreito com a igreja. Isto é, a CIBI é uma das poucas denominações na qual a ação social culminou em uma federação organizada que serve de apoio aos trabalhos de todas as suas igrejas filiadas. O que faz da FEPAS uma rede dentro de uma rede.

Segundo pastor Edeval Campos, coordenador executivo da FEPAS e vice-presidente da CIBI, as ações não devem transformar apenas o “estado imediato da pessoa, mas [devem] também resgatar sua dignidade e fazê-la participante e construtora de sua história”. A FEPAS é o meio pelo qual essa visão se torna algo prático e acessível para as igrejas locais.

A federação investe em áreas bem diversificadas: educação e profissionalização, saúde, meio ambiente, projetos comunitários e desenvolvimento organizacional. Atua por meio de creches e escolas, acompanhamento sócio-familiar, postos de sáude, projetos ambientais, monitoramento técnico e financeiro, centros de formação e simpósios. Oferece, além do suporte financeiro, assessoria técnica e treinamento.

Pastor Edeval entende que a redenção é para a família como um todo, mas, em especial, para a “criança, por ser a parte mais fragilizada” em situações de dificuldade e risco. Das 36 instituições sociais ligadas a FEPAS, 34 são voltadas para o atendimento de 5.600 crianças e adolescentes.

Todos os projetos, cuja maioria se localiza na região Nordeste, estão ligados a uma igreja batista independente. No entanto, Edeval afirma que FEPAS não trabalha apenas com organizações cristãs, ela incentiva as parcerias com organizações que “atuem dentro de uma filosofia ética e de busca de transformação das estruturas de miséria em nossa nação. Portanto, estamos inseridos dentro de outras redes e mantemos diversos tipos de convênios”. Ainda segundo o pastor, a federação dá autonomia para cada igreja local buscar e realizar parceiras com outras organizações e instituições ampliando essa rede de atuação.

Para o pastor Herbert Nogueira, da Igreja Batista da Graça, a denominação historicamente vê a ação social como uma parceira importante para a implantação de igrejas. Logo, o projeto social existente em Camará “vem apenas para consolidar nossa vocação como uma denominação comprometida com a pregação integral do evangelho”. (T. M.)

 

Autor(a): Tábata Mori, jornalista e poetisa, coordenadora de comunicação de Asas de Socorro, voluntária da Rede Mãos Dadas, da Aliança Bíblica Universitária do Brasil.

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