Aulas começando e muitos pais comemorando a volta da rotina da casa. (Quem levanta a mão aí?) Vamos então aproveitar esse tempo de retomada para fazer um exercício rápido sobre o que vivemos nesse tempo de férias e como estamos iniciando esta nova jornada. Conversando com alguns pais percebo aquela insegurança diante do novo: “Foi pouco o que vivemos nas férias?”, “Foi demais?”, “Faltou algo?” Essas perguntas ressoam o desejo genuíno de ver a criança ou o adolescente bem preparados para o que está por vir. Pois a criança não chegará à escola “em branco”, mas carregando uma mochila invisível. O que pode ter sido colocado ali enquanto ela brincava nas férias?
Pensar sobre a “mochila invisível montada nas férias” nos remete a perceber o que não aparece em cadernos, mas sustenta o aprender? Ou que tipo de recursos emocionais e cognitivos uma criança precisa para aprender — antes mesmo do conteúdo? Sim, há bastantes coisas para percebermos aqui. Vamos juntos?
Sequência lógica, linguagem, memória de trabalho podem ser treinados? Quando uma criança inventa histórias ela está trabalhando tudo isso, enquanto investe também na imaginação! E jogos com regras, o que exercitam internamente? Atenção sustentada, espera, flexibilidade, assimilação de um mundo que vai “além de mim mesmo”. (Quanta riqueza, não?!) E sobre brincadeiras difíceis — superar e tentar de novo — o que está sendo aprendido? Tolerância à frustração, resiliência, autorregulação, superação… O chão da sala e do quintal são grandes mestres treinadores, preparando o terreno para o que essa criança precisará na escola.
Durante toda a nossa série sobre o brincar falamos do adulto que, aprendendo a ser mais observador e curioso – e, portanto, menos controlador e “dono do saber” – aprende a de fato a conhecer mais o mundo interno da sua criança. E colocar-se nessa posição não o faz perder seu lugar de autoridade, ao contrário: o permite explorar novas possibilidades de ajudar essa criança a se organizar internamente. (Como é bom não precisar saber de tudo, não? Libertador!)
Quando o ano letivo não é encarado como um recomeço do zero, mas um desdobramento de algo já em andamento, percebemos que na verdade a mochila já está mais cheia do que parece. Algo já foi preparado. (E mesmo que se perceba algum falta nesse terreno preparador, quando chegar a hora da escola, é bom pensar que o brincar é livre, é agora, permite recomeçar a qualquer tempo, Há tempo e oportunidade de se correr atrás.) E uma segurança nasce no adulto que reconhece esse terreno interno, sempre fértil.
“O coração do sábio adquire o conhecimento, e o ouvido dos sábios procura o saber” (Pv.18:15)
Não tem jeito, essa galerinha aprende o tempo todo! Então, bom ano escolar a todos, com mochilas invisíveis, cheia de memórias — terrenos férteis para jornadas cheias de significado!
Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas.
