Campanha de Vacinação: estratégia bem bolada que promove o protagonismo do adolescente

O que é protagonismo? 

Adolescentes vacinando na Universidade Federal de Viçosa, MG.

O protagonista de uma peça teatral é o personagem principal. Ele luta, ele age, ele defende, ele sonha, ele faz com que o enredo tenha sentido. O conceito de protagonismo está intrínseco na Declaração de Direitos da Criança das Nações Unidas, especialmente nos artigos 12 e 13, que falam sobre a importância de dar ouvidos às opiniões das crianças. No Brasil ela foi muito defendida pelo educador mineiro e um dos redatores do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Antônio Carlos Gomes da Costa (1949-2011). Segundo Gomes da Costa, o adolescente precisa ser visto como o elemento central da prática educativa. Ele precisa participar de todas as fases desta prática do seu início até a sua avaliação final.

Veja o que diz o artigo de Branca Silvia Brener,* publicado no site da Rede Pró-menino:

A ideia é que o protagonismo juvenil possa estimular a participação social dos jovens, contribuindo não apenas com o desenvolvimento pessoal dos jovens atingidos, mas com o desenvolvimento das comunidades em que os jovens estão inseridos. Dessa forma, segundo o educador, o protagonismo juvenil contribui para a formação de pessoas mais autônomas e comprometidas socialmente, com valores de solidariedade e respeito mais incorporados, o que contribui para uma proposta de transformação social.

É uma ideia brilhante e de forma alguma distante da experiência de Jesus relatada no Evangelho de Lucas. Na cena da páscoa em Jerusalém vemos um adolescente (12 anos) numa conversa de três dias com os doutores da lei! Quem foi o protagonista nesta cena? O menino Jesus! Apesar da ideia de participação infanto-juvenil ter um grande potencial transformador, no dia-a-dia das organizações sociais, escolas e igrejas, os educadores encontram dificuldades para colocá-la em prática.
Pensando nisto, a Juventud para Cristo em Montevideo, Uruguai, organização social cristã com __ anos de existência e uma ampla caminhada na área de prevenção e proteção às crianças e adolescentes, elaborou uma estratégia cujos resultados já começam a ser conhecidos.

Uma história para contar 

 

Luis Cesari, diretor da JPC e mentor da campanha

Há mais de 10 anos, um grupo de jovens pertencentes ao Ministério Juventude para Cristo do Uruguai faziam missão numa comunidade muito pobre, relacionando-se principalmente com crianças cujas mães eram prostitutas. Conheceram ali a terrível situação de abuso e violência a que estava submetida uma das meninas daquela comunidade. Então, com a mesma profunda dor e indignação de Jesus, eles entenderam que assumir a proclamação das boas novas não podia acontecer sem um clamor, sem mudanças, sem denúncia, sem cuidado e prevenção daquela e tantas outras violências contra as crianças.

Não dava para ignorar tamanho sofrimento. Decidiram então usar a sua dor e fazer missão a partir dela. Criaram um programa de prevenção chamado Claves e, dentro deste programa, uma campanha pública dirigida a toda a sociedade adulta, que enfatizaria os valores de justiça, respeito, dignidade, saúde e plenitude de vida. Valores presentes no Reino de Deus.

Nasceu assim a Campanha de Vacinação Façamos um Trato pelo Bom Trato, dirigida aos adultos para promover e conscientizá-los da necessidade de mantermos relações saudáveis com as crianças e adolescentes. Uma vacina simbólica (uma balinha) e um certificado de vacinação se tornaram as ferramentas básicas da campanha. Adolescentes desafiariam adultos a valorizar e reconhecer a dignidade das crianças.
Modelo que funciona

De lá para cá, a Juventud para Cristo divulgou a ideia para outros países. Oito países da América Latina, inclusive o Brasil, já se apropriaram desta metodologia desenvolvendo suas próprias campanhas há vários anos. Em julho deste ano, adolescentes provenientes destes oito países vacinarão os líderes evangélicos congregados por ocasião do CLADE V (Congresso Latino-americano de Evangelização) na Costa Rica.

O que distingue esta de outras campanhas de conscientização da sociedade? É o fato de a Campanha de Vacinação valorizar muito a capacidade de participação e articulação dos adolescentes. O entusiasmo deles chega ao ponto de proibir a sua realização caso não haja a devida capacitação dos adolescentes, protagonistas maiores da campanha. Os adultos envolvidos assumem o papel de apoiadores e incentivadores da ação e entendem que os próprios adolescentes participantes se beneficiarão com a oportunidade de serem escutados e de entrarem em diálogo com a sociedade em assuntos importantes que lhes dizem respeito.

Veja mais sobre como realizar esta campanha na sua cidade nas próximas páginas: 18 e 19. Para mais informações sobre o impacto da campanha peça pelo e-mail cartas@maosdadas.org o artigo “Aprendizagem e recomendações dos efeitos das Campanhas de Vacinação realizadas no Uruguai, Bolívia, Argentina e Brasil”, por Luciana Noya.

*Branca Sylvia Brener é psicóloga, psicodramatista e mestre em serviço social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). 

Revista Mãos Dadas Edição 28 – Boas práticas

 

  • Autor(a):Elsie B. C. Gilbert – Editora da Rede Mãos Dadas.