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Irmã Doraci: mártir dos tempos atuais

A missionária Doraci Julita Edinger teria um encontro na cidade de Beira, em Moçambique, com o pastor presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Walter Altmann, no final de fevereiro deste ano. Ela pretendia fazer nesse encontro algumas revelações graves. Infelizmente, talvez nunca se saberá o que a missionária tinha para falar, pois foi assassinada dias antes.

Trajetória
Natural de Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, a terceira de onze filhos, Doraci nasceu em 1950. Aos 30 anos, entrou para a Irmandade Irmã Sophie Zink, de São Leopoldo, vinculada à IECLB.
Como diaconisa, a irmã trabalhou primeiramente como auxiliar de enfermagem no Rio Grande do Sul e mais tarde como promotora de saúde em Rondônia, Amazonas e Mato Grosso. Aceitar o chamado para Moçambique, em 1998, foi o grande desafio de sua vida.
Doraci concentrou suas atividades nesse país africano em três áreas: saúde, educação e construção de comunidades. Determinada e organizada, ela era uma pessoa que acreditava no que fazia.
“Eles achavam que era um milagre”, escreveu ela sobre a reação do povo da região de Moma (interior do país) quando passou a ter água limpa para beber, tirada de poços artesianos, graças ao seu empenho.

De bicicleta
Em Moma, Doraci andava mais de 35 quilômetros na garupa de uma bicicleta. Noutra bicicleta iam os seus pertences. “Vocês não podem imaginar as dificuldades que passo nessas viagens e o risco de ser assaltada, mas sinto que Deus está comigo”, escreveu para colegas no Brasil. Em 1999, foi-lhe doado um carro, que passou a ser usado para o transporte de doentes.
Em relato, Doraci descreveu a região de Moma: “É uma região muito pobre e, em conseqüência das guerras, a safra agrícola é baixa. Mas o povo é muito amável e alegre, com uma força muito grande para aprender, um povo sedento pela Palavra de Deus”.

Mártir
“Gostaria de permanecer por mais tempo. Por mais duro que seja não posso dizer ‘não’”. Assim, em 2001, a irmã Doraci resolveu ficar em Moçambique por mais três anos. Foi ao povo sofrido desse país que ela deixou a sua vida, inscrevendo-se no rol dos mártires dos tempos atuais. A irmã foi assassinada no apartamento em que morava, em Nampula. O corpo dela foi encontrado no dia 24 de fevereiro de 2004, provavelmente três dias depois de ter sido morta. O motivo do crime ainda não foi esclarecido, mas suspeita-se que ela tenha sido assassinada porque tinha algo a contar. “O assassino ou seu mandante sabia ou presumia que ela me revelaria algo grave, que, do seu ponto de vista, não deveria chegar a meu conhecimento em hipótese alguma”, declarou Walter Altmann.

A irmã Doraci sabia que o risco de ser morta era real. Em certa ocasião, escreveu: “Agradeço a Deus por eu nunca procurar me defender, mas lutar para defender a causa de Jesus Cristo. Isso significa lutar por justiça; fazer tudo pelo bem do próximo; falar sempre a verdade mesmo, que isso traga sofrimento; ser honesta e responsável perante Deus e as pessoas. Minha vida está nas mãos de Deus”.