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Leonízia Gama: Consolada para consolar

Leonízia, indígena da tribo Tukano, ajuda crianças a superarem os mesmos traumas pelos quais passou

Leonízia, indígena da tribo Tukano, ajuda crianças a superarem os mesmos traumas pelos quais passou

Chegamos em São Gabriel da Cachoeira, AM, em 1991, para trabalhar com o povo Dâw. De segunda a sexta ficávamos na aldeia, mas nos finais de semana, meu marido e eu freqüentávamos uma igreja evangélica na cidade, inclusive lecionando para jovens e adolescentes. Foi lá que conhecemos Leonízia, na época com 14 anos de idade. Ela e a mãe, uma índia Tukano, eram evangélicas, mas seu pai, um índio Piratapuya, nunca quis saber do evangelho. Além disso, por causa do uso abusivo de bebidas alcoólicas causava sérios problemas para a família. Certo dia, bêbado, sofreu um acidente fatal. Poucos anos depois dois dos irmãos de Leonízia também morreram nas mesmas circunstâncias.

Freqüentemente ela estava em nossa casa, não só me ajudando com Daniel e as tarefas da casa, mas também no ministério. Por várias vezes ela e a prima me ajudaram a organizar Escolas Bíblicas de Férias na aldeia dos Dâw. Mais tarde, eu fui sua professora de filosofia da educação no curso de magistério. Ela era uma das melhores alunas da turma. Foi escolhida como líder de classe e todos a respeitavam muito. Quando estava para terminar o curso, estagiou na escola da comunidade. Ela participou conosco no início das mudanças ocorridas entre os Dâw. Desenvolvíamos pesquisas e atividades de prevenção relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas nas populações indígenas. Anos mais tarde comprovou a diferença na vida daqueles que no passado ficavam caídos embriagados pelas ruas da cidade.

Terminado o magistério, Leonízia manifestou o desejo de fazer um curso bíblico. Elias e eu indicamos o Seminário Bíblico Palavra da Vida. Oramos, ajudamos nos contatos, e ela conseguiu fazer os cinco anos do curso teológico. Não foi um tempo fácil, pois tudo era muito desafiador: a comida era diferente, o clima era outro e o jeito das pessoas também. Mas ela venceu e ainda completou o curso da Missão ALEM (Associação Lingüística Evangélica e Missionária) em Brasília. Depois, recebeu um convite para servir a Deus no Timor Leste, onde fi cou pouco mais de dois anos. Ela conta que, em todas essas experiências fora de São Gabriel da Cachoeira, Deus a quebrantou e a fez amadurecer, preparando-a para voltar.

Em 2005, voltou para São Gabriel da Cachoeira e está trabalhando no Projeto Amanajé, com A Missão de Evangelização Mundial (AMEM), ministrando na Igreja Evangélica Indígena Tukano. Deus lhe tem dado oportunidades de consolar as crianças e adolescentes daquele bairro. Ela se identifica com eles. Muitos passam pelas mesmas situações que ela passou, como ter de dormir fora de casa porque seu pai e irmãos estavam bêbados e violentos. Leonízia não só tem conseguido superar os traumas que sofreu quando criança, mas está aprendendo cada vez mais a compartilhar e ajudar crianças em situação de risco.

Autor(a): Lenita de Paula Souza Assis é casada com o missionáriomédico Elias Coelho de Assis e mãe de Daniel. É mestre em sociedade e cultura pela Universidade Federal do Amazonas e trabalha com indígenas há 28 anos.

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