Mãe, me leva pro parquinho?

Mãe, me leva pro parquinho?

Há pedidos que são maiores do que parecem. Quando uma criança diz: “Mãe, me leva pro parquinho?” o que de fato ela está pedindo? Sabe, provavelmente ela não está pedindo apenas um passeio. Ela deve estar pedindo o mundo. Não porque o mundo de casa não seja real — ele é. Ali existem vínculos, histórias, afetos, segurança. Mas existe algo que só acontece quando a criança sai do território conhecido e se encontra com o outro: o mundão real, com experiências reais e pessoas reais.

O parquinho é esse lugar simbólico onde a infância se expande. Onde a criança deixa, por um instante, a relação vertical com o adulto e entra na relação horizontal com seus pares. Ali, ninguém sabe tudo. Ninguém manda em tudo. E exatamente por isso, tanta coisa importante acontece. Afinal, com aquele que é par comigo, eu posso tentar. Posso errar. Posso observar o outro — como eu — tentando também. Aprendo a me expressar para resolver meus problemas no aqui-agora. E, ao mesmo tempo, vejo como o outro se organiza para resolver os dele. É um aprendizado vivo, imediato, profundamente humano.

No parquinho, o corpo entra em cena por inteiro. O corpo que corre, sobe, desce, cai, levanta. Corpo que se esforça e passa a entender limite, cansaço e superação. Assimila em si mesmo noções concretas como altura, distância, força, espaço. E, assim vai compreendendo mais seu lugar de ser; o quanto literalmente ocupa de espaço nesse mundo tão grande e farto em possibilidades. Esse entendimento pode parecer simples e óbvio para nós, adultos, mas para a criança, que a cada dia percebe seu corpo em desenvolvimento, acredite: é algo extraordinário de assimilar, no sentido mais profundo da palavra!

E vamos em frente: e quando esse corpo encontra outros corpos? Ah! Algo ainda mais rico acontece: a criança de cara vê alguém “pequeno como eu, mas diferente” – e inevitavelmente se compara. É verdade, algumas vezes essa comparação pode levar a certa frustração. Porém, se bem acolhida e assessorada, ela remota à diferenciação de si do outro, entendendo e aceitando diferenças. E a competição saudável e necessária vira superação. E a cooperação? A criança observa o outro fazendo para assimilar em si. Diferencia-se do outro sem se afastar. Descobre que somar forças muda o resultado. Que ser diferente não exclui — complementa!

Por isso, quando uma criança tem liberdade para brincar e não brinca, vale cultivar um olhar cuidadoso. Porque nem toda contenção é escolha. Às vezes é cansaço, porém às vezes insegurança. Às vezes medo, dor, ou até excesso de proteção internalizada. Cada criança é única, e cada leitura precisa ser singular. Mas, em geral, o brincar livre convoca, provoca. E quando não convoca, algo merece ser observado com carinho — não rotulado ou apressado, mas notado, sim, e considerado. 

Afinal, entre crianças, o aprender não acontece por instrução formal. Acontece por observação, tentativa, erro e repetição. Crianças mais experientes em determinado movimento ou brincadeira ensinam — sem saber que ensinam. E quem aprende, logo devolve ao mundo aquilo que descobriu. Hoje aprendo com você. Amanhã te ensino outra coisa. Esse movimento fortalece vínculos, autoestima e autonomia. A criança se percebe agente: de pensamento, de ousadia, de criação. (E é nesse sentido que quando a criança escolhe não passar por esse movimento, ela precisa de cuidadosa atenção. Não como correção, mas como escuta do que a impede de ir.) 

Pois, claro, nem tudo é harmonia. No parquinho também há disputa, frustração, espera, choro, reconciliação. E ainda bem. É ali que a criança aprende a defender seu ponto de vista. Ouvir o outro. Argumentar. Percebe que nem todos pensam igual — quase nunca. Aprende a sustentar diferenças sem romper vínculos. (Algo que muitos adultos ainda estão aprendendo, não é?)

E por fim, diante desse cenário tão rico da brincadeira entre os pares, qual o papel do adulto? Um papel delicado que não se refere ao dirigir o brincar ou resolver questões, mas sim sustentar um espaço física e emocionalmente seguro desde antes do brincar começar. E intervir apenas, realmente, quando necessário nesse sentido da salvaguarda. Pode parecer pouco e bobo “estar ali pra nada”, mas a observação ativa, rica, quando desenvolvida – que não se constroi olhando o celular – leva o adulto a aprender a tolerar o desconforto de não controlar tudo. Ele passa a permitir que a criança se vire, erre, negocie, construa seu próprio caminho. Ele aprende a conhecer mais facetas da sua criança.

E assim o espaço para as memórias é criado na criança. Memórias de si. Memórias de como se foi diante do outro. De como reagiu, insistiu, cedeu, criou. Ficam referências internas que acompanham o pequeno pela vida inteira. Referências que podem ser desenvolvidas, melhoradas ou mantidas no próximo jogo, no próximo brincar. Pois o brincar regula e ensina. A criança que brinca bastante — com o corpo, com o outro, no mundo real — tem muita referência para onde olhar, conforme cresce. 

E, talvez seja por isso que esse pedido simples carregue tanto significado: “Mãe, me leva pro parquinho?” É um convite para crescer — com o outro, no mundo, descobrindo quem se é.

Jesus ia crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens. (Lucas 2:52)

 

Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas.

 

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