Mas esses irmãos não brincam, só brigam!

Muitas casas, apesar de cristãs e cheias de princípios bíblicos, vivem a realidade de crianças “não dando certo” juntas no dia a dia. (Alguém por aí assim, nessa reta final de férias escolares, com tempo de sobra dentro de casa?!) O que acontece quando o convívio entre irmãos se torna algo mais sobre tensão do que sobre encontro? Apesar de termos exemplos claros na Bíblia sobre essa relação cheia de complexidades — a saber: a irmandade — muitos pais crentes ainda têm fantasias dos filhos sendo companheiros naturais, que brincam juntos espontaneamente, que se entendem sem grandes intervenções, que fazem da convivência algo leve, quase automático.

E quando isso não acontece, doi. Frustra. “O que estou fazendo de errado? Por que eles não dão certo?” Barulho de briga constante, cansaço e impotência, sensação de casa sempre em tensão. A verdade é que a quebra da imagem idealizada de irmãos-sempre-amigos, doi. Ainda mais se, “sem querer querendo”, acabamos fazendo comparação com outras famílias da igreja. Doi perceber que, em vez de parceria, há disputa. Em vez de encontro, há distância, e por vezes até repulsa.

Mas vamos lá:

  • Caim e Abel
  • José e seus irmãos
  • Jacó e Esaú
  • Raquel e Lia
  • Moisés, Arão e Miriam 
  • Davi e seus irmãos
  • Amon, Absalão, Salomão e Adonias – Filhos de Davi
  • Irmãos de Jesus (incredulidade nele, no início)
  • Marta e Maria
  • Filho pródigo e irmão mais velho (parábola)
  • E a lista segue… 

Será que essa dor nasce realmente da incompetência parental? 

A verdade é que irmãos não nascem prontos para conviver. Eles nascem em tempos diferentes, com corpos diferentes, recursos emocionais diferentes, necessidades diferentes. O mais velho já alcançou lugares que o mais novo ainda nem consegue enxergar. O mais novo vive demandas que o mais velho já ultrapassou. Quando se espera que ambos brinquem “do mesmo jeito”, monta-se também o palco para a frustração. Para o menor, a experiência pode ser de constante inadequação. Ele quer acompanhar, mas não alcança. Para a criança maior, pode surgir a sensação de invasão, de perda de espaço, de ter que ceder sempre. E, no meio disso, a brincadeira — que deveria ser território de prazer — vira campo de disputa.

Apesar de disputa não ser o mesmo que ausência de vínculo! Conflitos fazem parte da vida entre irmãos. Lutar por espaço, argumentar, defender o que é seu — tudo isso é esperado e saudável. O que pede atenção não é a briga pontual, mas quando o convívio se torna apenas tensão. Quando não há espaço para nenhum tipo de experiência agradável juntos. Quando a presença do outro é vivida como ameaça constante. É aqui que o adulto ganha um papel essencial. Não como juiz, nem como animador profissional do brincar. Mas como organizador do ambiente.

Quando a conexão entre irmãos ainda não acontece sozinha, ela pode — e muitas vezes precisa — ser ensinada. Criada em pequenas doses. (Afinal, nem toda brincadeira precisa ser compartilhada. O brincar individual também organiza, acalma e estrutura. Separar, às vezes, não é fracasso na convivência — é cuidado com os limites de cada um.) O adulto que entende isso, na hora certa, media com intenção. Ele protagoniza o início de experiências possíveis de encontro: atividades que respeitem as diferenças de idade, brincadeiras em que cada um tenha um lugar real. Momentos curtos, claros, com começo, meio e fim. Não para forçar amizade. Mas para apresentar caminhos.

Aos poucos, as crianças aprendem algo precioso: que é possível existir juntas sem serem iguais. Que não precisam disputar o tempo todo. Que podem construir algo em comum, mesmo partindo de lugares diferentes. Essa aprendizagem não transforma irmãos em melhores amigos ideais. Mas pode transformá-los em algo talvez ainda mais importante: pessoas capazes de conviver, negociar, reconhecer limites e criar pequenas alianças no cotidiano. (E isso reorganiza não só a casa — reorganiza a experiência emocional das crianças. Elas passam a ter referências internas de convivência possível, de conflito que não destroi, de diferença que não afasta.)

Talvez o alívio esteja justamente aí: não na fantasia de irmãos perfeitos, mas na certeza de que uma outra dinâmica é possível. Mais organizada. Mais habitável. Mais real.

Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união. (Salmo 133.1)

 

Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas.

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