Os sinais maus estavam lá: por que não vimos?

Os sinais maus estavam lá: por que não vimos?

Você já presenciou um pai se deparando com um comportamento extremamente difícil do filho — um comportamento mau? Ou quem sabe você mesmo já tenha passado por esta experiência. Você se recorda da sensação do “como assim???” ou do “não é possível que esteja vendo isso na minha frente!” Realmente pergunto pra você (responda nos comentários): na sua opinião-vida-real, o que fazer diante dessa situação? (E aqui não estou pensando no que fazer diante do julgamento que as outras pessoas podem fazer e farão sobre o mau comportamento dos filhos, mas estou diante dos pais consigo mesmos pensando “O que fazer diante de tudo isso de ruim que, de repente, apareceu no meu filho?”)

Quando um cenário assim aparece na vida da família, normalmente traz internamente questões difíceis: 

  • Isso tudo apareceu “de repente” de fato? 
  • O que estou chamando de surpresa… já não vinha dando pequenos sinais? 
  • Minimizei algo porque parecia pequeno demais?

Aqui a intenção é pensarmos em algo mais investigativo por hora, menos emocional e mais observador. Simplesmente abrir um espaço maior para a dúvida. Tentar ter menos medo de respostas e só pisar mais o pé no chão. Pensar se “de fato não tinha como saber” que algo não estava bem. Porque não poucas vezes o movimento de perceber não é fácil: Quando a agressividade vira “brincadeira”? Quando a indiferença vira “personalidade forte”?

Vou falar da primeira infância porque é algo que tenho vivido por aqui em casa. Alguns comportamentos difíceis — até violentos — costumam ser relativizados como “coisa de idade”. Por exemplo: é comum ouvir que na primeira infância o “bater quando frustrado”, o “morder coleguinhas”, o “empurrar para conseguir algo” ou “rir quando o outro chora” são comportamentos esperados. E de certa forma são sim. Mas não é porque algo é esperado que não precise ser mediado, educado, ensinado, corrigido. Uma criança que está apresentando comportamentos agressivos, em certa medida, não está percebendo o outro — só o que “eu vivo no meu próprio corpo” (dor, cansaço, alegria, desejo, etc.) é conhecido bem. Então esse olhar de fora/ para fora precisa ser explicado, esclarecido, formado. Ensinado. 

No caso mencionado acima, da suposta “fase agressiva da primeira infância”, o adulto poderia querer educar a criancinha apenas esperando que a fase passe. Iria além se a mandasse “pedir desculpas” por ter se comportado mal. Mas será que essas posturas a teria ensinado de fato sobre o que o outro sente e pensa sobre o ocorrido? (Algo que ela precisa ir aprendendo, mesmo pequenininha!) Ou, interromper o mau ato da criança e nomear a dor do outro ensinaria mais? Esse adulto precisa perceber a diferença entre o que é “uma criança se autorregulando” (expressando raiva e frustração, sentimentos legítimos) e “uma criança usando a força” para resolver suas questões. Quando chamamos de “fase da criança”, estamos realmente acompanhando esses comportamentos difíceis ou apenas esperando que o comportamento mau passe? É necessária uma mediação educativa que traga luz ao que ainda não é óbvio para a criança. O adulto está ali como mediador do que a criança ainda não consegue alcançar e ela já alcançou. Ele não faz por ela, mas nomeia, ensina, orienta. 

Mas não tem jeito: pais cansam, estão cansados. As telas distraem. A sobrecarga reduz a capacidade de observação e educar vira um “gerenciar rotinas”, fazendo com que a vida que precisa de atenção — os comportamentos que precisam ser cuidados, observados, corrigidos — passe despercebida. E passa mesmo. Pois “não perceber”, diante de tantas circunstâncias, pode estar querendo proteger algo. O que doi mais: reconhecer o erro ou admitir que não conseguimos ver, não quisemos ver? Silêncio também educa em horas críticas? E na verdade, talvez a pergunta não seja apenas “Por que não vimos?” Mas: “O que fazemos agora que conseguimos ver?” 

Nem todo silêncio é falta de informação; às vezes é proteção psíquica. Devagar, com ajuda, pais conseguem encarar situações difíceis com sabedoria. Se este é seu caso, ore ao Pai dos pais e peça ajuda capacitada, busque conselheiros realmente sábios. O caminho pode ser longo, mas a semente de sabedoria tem um fruto doce. 



Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas.

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