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Por que as mães não conseguem proteger suas filhas?

“Já conversamos bastante com a Virgínia. Hoje ela está com 29 anos. É a caçula de dez filhos (quatro homens e seis mulheres). O pai, com quem mora, sempre bebeu. Dois irmãos já morreram devido ao uso abusivo de álcool. Só o irmão mais novo parece ter escapado a esta sina. Quatro das seis irmãs conquistaram parceiros cuja característica comum é o consumo excessivo de álcool. Virgínia imagina que no bairro em que vive, de dez homens, dez bebem. O diferencial entre eles não é a sobriedade, e sim o grau de violência quando estão bêbados (“o bom homem é aquele que vai dormir quando está bêbado”). Às vezes ela mostra sinais de reação. Ouvimos ela dizer a uma amiga: “Ah, tá na hora de acabar com este sofrimento”. Mas temos a impressão de que ela está longe de conquistar a independência e a confiança para reger a própria vida. Está longe de se tornar a mãe protetora que ela sabe ser a vontade de Deus para sua vida. Parece que pela primeira vez em muito tempo está contemplando uma mudança radical de vida, que já julgava impossível. Mas ela não tem a menor idéia de como proceder para mudar e teme não ser capaz. Sabemos que tem reagido positivamente ao nosso estímulo. Contudo, receamos que, quando este faltar, tudo volte à estaca zero.”

Entrevista com Isabelle Ludovico

MÃOS DADAS – Por que as mães muitas vezes não conseguem proteger suas filhas de um pai ou padrasto abusivo?
ISABELLE – Muitas mães foram, elas mesmas, vítimas de abuso na infância e não tiveram a quem recorrer. Para sobreviver, elas procuram esconder a ferida e ficam emocionalmente paralisadas diante do risco de se deparar com esse fantasma da sua história.

 

MÃOS DADAS – As mães geralmente sabem do abuso? O que é preciso acontecer para que elas consigam identificar situações de perigo?
ISABELLE – Algumas mães não conseguem admitir que existe abuso porque são emocionalmente dependentes do abusador, que é uma pessoa sedutora e envolvente. Outras sabem, mas se sentem incapazes de lidar com a situação e por isso preferem fazer de conta que nada está acontecendo. Outras, ainda, se vêem à mercê do contexto em que vivem. Como exemplo, cito o caso de uma esposa de pastor que me confessou não ter tomado providência para não escandalizar a igreja.

 

MÃOS DADAS – Quando elas ficam sabendo que uma filha está sendo vítima de abuso sexual, qual é reação mais comum?
ISABELLE
 – A reação é parecida com a de alguém que descobre que tem uma doença terminal. A tendência é primeiro negar o que está acontecendo. Depois vem a raiva diante da quebra de confiança, decepção, violência emocional e sofrimento. Daí é possível passar para a ação.

 

MÃOS DADAS – Por que tantas mães negam a situação ou tentam proteger o homem?
ISABELLE
 – A negação é um mecanismo de defesa que visa evitar a dor. É a política da avestruz, que enfia a cabeça na areia para não enxergar o perigo e pensa que, com isso, está se protegendo. A tentativa de proteger o homem se deve à dependência emocional e material em relação a ele, bem como ao medo das conseqüências de um confronto.

 

MÃOS DADAS – Que mudanças emocionais a mãe precisa experimentar para que tome a iniciativa de proteger a filha?
ISABELLE – A mãe precisa ter uma certa autonomia emocional e material. Ela precisa ser capaz de andar com as próprias pernas. Precisa de uma boa auto-estima. Precisa ser forte para enfrentar as ameaças e conseqüências do confronto com o abusador.

 

MÃOS DADAS – Quais os passos que ela deve tomar para garantir uma proteção eficaz?
ISABELLE – Ela não pode mais deixar a criança sozinha com o abusador até que ele tenha se tratado. Para isso, deve buscar o acompanhamento de um líder espiritual e, na medida do possível, de um terapeuta familiar. Geralmente isso não acontece porque ela não tem a autonomia emocional de que precisa.


MÃOS DADAS
 – Que postura nós (agentes sociais, envolvidos com a criança) devemos assumir para com essa mãe?
ISABELLE
 – Em vez de julgar e condenar, precisamos buscar entender a atitude dela e saber quais são seus medos e o que ela precisa para reagir com maturidade. Devemos procurar fortalecê-la, ajudá-la a considerar as opções e os recursos disponíveis, bem como avaliar as conseqüências, e encorajá-la a tomar as providências necessárias para garantir não apenas a proteção da criança que foi abusada, mas que outros abusos não venham a acontecer

Nossa entrevistada sugere:
Lágrimas Secretas, de Dan Alleder (Editora Mundo Cristão), e Sexo, Amor e Violência, de Cloé Madanes (Editorial Psy).
Marcas do Silêncio, filme que mostra o silêncio da mãe e a justificação da filha para proteger a imagem da mãe. Este é mais um aspecto a ser compreendido: a criança abusada assume a culpa pelo abuso e muitas vezes não busca proteção.

Você pode obter, via e-mail, uma apreciação escrita por Isabelle contendo um resumo desses dois livros citados e passos prescritos por Cloé Madanes para o tratamento do abusador. Mande-nos um e-mail com o título “Lágrimas Secretas”.

Os vinte primeiros leitores que nos enviarem uma cópia do estatuto ou plano de ação do projeto em que trabalham receberão gratuitamente o livro Compreendendo a Violência Sexual em uma Perspectiva Multidisciplinar.

Autor(a): Isabelle Ludovico, é psicóloga com especialização em terapia familiar sistêmica