Por que não ouvimos no meio do caos? 

Por que não ouvimos no meio do caos? 

Esse contexto da guerra entre Irã, Israel e EUA – em que cerca de dezesseis países estão sendo afetados direta ou indiretamente pela escalada militar – mobiliza nosso pensar enquanto Rede Mãos Dadas sobre como podemos dar suporte a famílias em situação de conflito. E aqui podemos refletir no conflito armado em si, pois temos projetos parceiros que amparam de fato famílias nessas condições no Brasi e no mundo, mas também podemos falar dos tantos conflitos simbólicos que rondam famílias. Há tanto que, infelizmente, este cenário tão triste nos ensina. 

Talvez a principal lição, para as famílias, é que o ato de ouvir passa a ser algo realmente complexo e árduo dentro de uma situação de caos. Quando estamos em situações de ameaça, mudança brusca ou instabilidade – como conflitos familiares, mudança de país, crise emocional ou até a própria guerra – nosso sistema nervoso entra em modo de sobrevivência. Esse modo não foi feito para refletir, ouvir com calma ou aprender. Ele foi feito para nos manter vivos. Nosso cérebro possui sistemas diferentes que funcionam conforme o nível de segurança percebido. Em contextos de segurança, o cérebro ativa mais intensamente áreas responsáveis por raciocínio, reflexão, escuta, tomada de perspectiva, planejamento, etc. São funções ligadas principalmente ao córtex pré-frontal, região ligada ao pensamento mais elaborado. Porém, quando o cérebro percebe ameaça ou instabilidade, outra região assume o controle: a amígdala, estrutura envolvida na detecção de perigo. Ela ativa o que podemos chamar de sistema de alerta.

O sistema de alerta, quando ativado, libera hormônios de estresse no organismo, como a adrenalina e o cortisol. Esses hormônios preparam o corpo para lutar, fugir ou congelar. Basicamente, o cérebro prioriza funções como 1) reagir rápido, 2) detectar riscos, 3) proteger-se. E, aqui está a questão difícil para as relações nesses contextos difíceis: o cérebro reduz temporariamente a atividade das áreas responsáveis por escutar profundamente. Refletir sobre conselhos, considerar outros pontos de vista e aprender coisas novas – comportamentos fundamentais para o cultivo de relações saudáveis – passam a ser coisas realmente muito mais trabalhosas do que poderiam ser em condições de paz.  

Então, quando alguém está em estado de alerta, uma orientação recebida pode ser percebida mais como uma ameaça. Nesse estado a pessoa normalmente reage se defendendo rápido,  ignorando o que foi dito, sentindo-se mais irritado ou impaciente e não raro, se fecha emocionalmente. É como se uma “teimosia sobrevivente” estivesse ativada. É como se o sistema nervoso estivesse dizendo: “Agora não é hora de refletir. É hora de sobreviver.” 

Ou seja, para a escuta acontecer de fato, o sistema nervoso precisa sentir segurança suficiente. E o “engraçado” é que, mesmo no caos, o caminho da escuta intencional – mesmo que ainda não natural, ainda meio mecânica e ansiosa, feita mais como um exercício do que como hábito, de início – é que pode ir indicando uma saída para o retorno às boas relações. O exercício dessa prática é que vai deixando a coisa mais leve. Pois quando alguém se sente ouvido, compreendido e menos pressionado, o corpo sai gradualmente do modo de alerta. Nesse momento, o cérebro volta a ativar as áreas ligadas à reflexão e ao aprendizado. É por isso que, em contextos de crise, a escuta verdadeira costuma ser mais eficaz do que o excesso de orientações. Primeiro, o sistema nervoso precisa se acalmar. Só depois a mente consegue realmente escutar.

As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. (João 20:27)

 Jesus, o Bom Pastor, diz que suas ovelhas o conseguem ouvir. Por que será, não é? O Bom Pastor conduz as ovelhas aos pastos verdejantes, refrigera suas almas, corrige e orienta com firmeza e amor (Salmo 23). Ele abre todo o espaço primeiro e nos ensina a ouvir. Ele nos ensina a amar. 

Podemos aprender com Ele. 

Nós amamos porque Ele nos amou primeiro. (1 João 4:9)

 

Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas.

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