“Tio Silas, estou muito triste, ora pra mim!”

Entre as 110 crianças assistidas pelo Projeto Pequeninos, instituição que coordeno desde a sua fundação há 15 anos, temos a Dorinha.* É uma menina linda de cinco anos que diariamente chega para mim e diz: “Tio Silas, vamos conversar?”. Eu paro tudo que estou fazendo para conversar com ela, e o seu desabafo é sempre o mesmo. “Tio Silas, estou muito triste, ora pra mim!”. Eu pergunto o motivo da sua tristeza e ela me fala sobre o pai que está preso, e como ele sempre promete voltar para casa, mas nunca volta. Eu converso com ela, tento consolá-la, e percebo que o seu desabafo diário tem sido uma terapia. Quem sabe assim ela não acumulará a sua tristeza, que é real e transparente.

Preocupação que orienta
Se essa criança não receber a atenção e o acompanhamento que merece ao longo do seu desenvolvimento, seu futuro será trágico, e é nesse processo que temos um papel importantíssimo.

Preocupamo-nos não só com a formação intelectual dos assistidos, mas também com um futuro melhor – à semelhança da pergunta feita a respeito de João Batista: “O que será deste menino?”.* Preocupamo-nos com todas as áreas de sua vida: nos relacionamentos, na vida emocional, nas oportunidades socioeconômicas e no seu desenvolvimento espiritual.

O envolvimento do educador na vida da criança é uma vocação. Somos chamados para nos preocupar com o bem-estar da criança e do adolescente. Se estes não estão bem, se estão sofrendo maus-tratos, negligência ou qualquer outro risco, não sossegamos enquanto não conseguimos livrar essa criança dessa realidade desumana.

A Ane, de apenas dois anos, carrega uma tristeza tão profunda no olhar que chega a incomodar. Ela encontrou muito cedo a dor e o descaso causado pela dependência química de seus pais. Socorrer crianças nestas circunstâncias exige trabalho em equipe, com psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais dos órgãos de defesa da criança. Aqui, conosco, ela pode contar com um abraço amoroso, um banho caprichado e outros cuidados que ela não costuma receber. Estou certo de que isso tem um poder cicatrizante tanto no corpo como na alma.

Desejo que orienta 
Nosso desejo primário é o de consolar, proteger, defender e demonstrar claramente o amor de Deus que chora e sofre com a criança. É isso! Somos agentes de cura e libertação, agentes que anseiam por transformação. Queremos ver crianças brincando e sendo simplesmente felizes; livres do abuso sexual, das feridas físicas provocadas pelos espancamentos e das feridas emocionais causadas por palavras duras.

Agora mesmo a pequena Ane olhou pra mim e, no seu rostinho miúdo, esboçou o seu primeiro sorriso no seu tempo aqui conosco. Foi um sorriso tímido, mais parecido com uma caretinha. Mas eu vejo além da caretinha. Logo veremos Ane e Dorinha, duas lindas meninas, correndo pelo pátio, cantando a plenos pulmões, rindo alto como fazem as crianças que são felizes!

Revista Mãos Dadas 28 

 

  • Autor(a): Paulo Silas Angelo Marques- é fundador e coordenador do Projeto Pequeninos, formado em processos gerencias, pós-graduado em missiologia pelo Centro Evangélico de Missões (CEM) e pastor da Igreja Cristã Apóstolica em Sete Lagoas, MG.