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Uma família admirável

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Família Cambuí: frutos integrais nos 13 anos de trabalho entre os Yanomami, no Acre

O adeus que a minha prima Sara e sua família, o marido Josias Cambuí, e as filhas Glenda (14 anos) e Karis (11 anos), deram aos índios Yanomami em novembro de 2007 foi radical. Sempre acharam que na hora que tivessem de deixar o trabalho missionário ali um outro casal os substituiria, ou que a essa altura uma igreja indígena com liderança própria já teria sido formada. Mas após 13 anos de trabalho na aldeia Aracá, eles sabem que não poderão mais voltar ali e, se tentarem, só encontrarão a selva!

A despedida aconteceu porque a aldeia Aracá, de etnia Yanomami, localizada no interior do Acre, resolveu mudar a maloca para vinte quilômetros ao norte (oito horas de caminhada pela mata). Eles fazem isso sempre que a caça e a pesca na antiga maloca ficam escassas, mais difíceis. A mudança exigiu dos meus primos e seus colegas uma decisão muito dura: sair dali ou abrir, próxima à nova maloca, uma outra pista para o avião e construir uma nova base, empreendimento que levaria no mínimo seis anos para ser concluído. O transporte aéreo era a única via de acesso deles a mantimentos e socorro médico. E assim, com imenso pesar, o casal deixou o lugar onde suas fihas cresceram, e onde com a ajuda de Deus construíram uma relação de grande amizade com aquele povo.

Na bagagem eles levaram muitas lembranças. Alguns momentos de desespero, como o dia em que a pequena Karis, com 9 meses de idade, por causa de uma malária muito grave, sofreu uma hipotermia. Ela já entrava em coma, quando eles conseguiram contato pelo rádio com um médico nos Estados Unidos que os orientou sobre o que fazer até conseguirem um vôo que a levasse para o hospital em Boa Vista. Karis sobreviveu à doença sem seqüelas.

Houve também momentos de grande alegria. Um deles foi quando Sara viu um rapaz se afastar de uma cerimônia em que invocavam os espíritos para que resolvessem um problema da comunidade. O rapaz chegou à janela da casa da Sara e disse: “Eu já conheço a Deus, não acredito mais nos espíritos”.

Quando a família Cambuí chegou à aldeia em 1994 havia 132 indígenas, todos analfabetos e todos contaminados com malária. Em uma epidemia anterior — de sarampo — cerca de trinta indígenas haviam morrido. Devido ao trabalho intenso na área de enfermagem e prevenção, quando a família se separou deles em novembro de 2007, a malária já estava erradicada há seis anos e o grupo crescera para mais de duzentas pessoas. Deixaram também pelo menos quarenta pessoas que sabiam ler e escrever na sua própria língua. Tudo o que minha prima ensinava a alguns era espontaneamente retransmitido aos outros. O povo se sente tão confi ante que já busca a interação comercial com as populações ribeirinhas ao redor (a cidade mais próxima fi ca a seis dias de viagem pelo rio). Envolvidos em um novo ministério na base da Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), em Manaus, Sara e Josias Cambuí vivem hoje dias de grande saudade — a perda foi enorme. Os confortos da vida  urbana não os seduzem, e têm uma certeza: fariam tudo outra vez. O que os consola é saber que Deus ama aquele povo mais do que eles jamais poderiam amar. Ele mesmo se encarregará dessa história que ainda não terminou.

Autor(a): Elsie B. C. Gilbert, Editora da Rede Mãos Dadas.

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