A oração do coração

Em meio ao Mutirão Mundial de Oração, vamos meditar sobre oração com Henri J. M. Nouwensacerdote, teólogo, professor e escritor que ficou conhecido especialmente por sua capacidade de traduzir temas profundos da vida espiritual em uma linguagem acessível e profundamente pastoral. Nouwen no livro A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo – O Caminho do Coração (Edições Loyola, 2000)  se aproxima da sabedoria dos antigos monges do deserto para refletir sobre a vida espiritual cristã e os desafios do discipulado em nosso tempo. Hoje vamos pensar com ele sobre o coração que ora, que entra na presença de Deus para orar. Afinal, estamos orando por crianças que precisam, que têm seus pedidos diante de Deus, que querem conhecê-lo e conhecer a verdadeira Vida abundante que Cristo dá, na prática, apesar das dores. Mas para conhecer a Deus precisamos aprender a conhecer o nosso próprio coração. A criança precisa aprender a se conhecer. Precisa aprender a orar. A oração passa pelo coração. Passa pela Verdade. Passa por quem Deus nos criou para ser, pelo processo de formação de quem Ele quer que sejamos, mas antes disso: por quem somos hoje. O texto de Nouwen é um convite à reflexão sobre como oramos e como ensinamos as crianças a orar: 

A oração do coração

 

Orar é ficar na presença de Deus com a mente no coração, isto é, naquele ponto de nossa existência em que não há divisões nem distinções e onde somos totalmente um. Ali habita o Espírito de Deus e ali acontece o grande encontro. Ali, o coração fala ao coração, porque ali ficamos diante da face do Senhor, onisciente, dentro de nós. É bom saber que aqui a palavra “coração” é usada em seu sentido bíblico pleno. Em nosso meio, ela se tornou lugar-comum. Refere-se à sede da vida sentimental. Expressões como “coração partido” e “sentido no coração” mostram o coração como o lugar quente onde se localizam as emoções, em contraste com o frio intelecto onde têm lugar nossos pensamentos. Mas, na tradição judaico-cristã, a palavra “coração” refere-se à fonte de todas as energias físicas, emocionais, intelectuais, volitivas e morais.

 

No coração, originam-se impulsos impenetráveis, além de sentimentos, disposições e desejos conscientes. O coração também tem suas razões e é o centro da percepção e do entendimento. Finalmente, ele é a sede da vontade: faz planos e chega a uma boa decisão. Assim, é o órgão central e unificador de nossa vida pessoal. Nosso coração determina nossa personalidade e é, portanto, não só o lugar onde Deus habita mas também o lugar ao qual Satanás dirige seus ataques mais ferozes. Esse coração é o lugar da oração. A oração do coração dirige-se a Deus a partir do centro da pessoa e, assim, afeta toda a nossa compaixão.

 

Um dos monges do deserto, Macário, o Grande, diz: “A tarefa principal do atleta (isto é, do monge) é entrar em seu coração”. Isso não significa que o monge deva procura encher sua oração de sentimento; significa que deve esforçar-se para deixar que ela remodele toda a sua pessoa. O discernimento mais profundo dos monges do deserto é que entrar no coração é entrar no Reino de Deus. Em outras palavras, o caminho para Deus é pelo coração. Isaac, o Sírio, escreve: “Procure entrar na câmara do tesouro… que está dentro de você e então descobrirá a câmara do tesouro do céu. Pois ambas são a mesma coisa. Se conseguir entrar em uma, você verá ambas. A escada para este Reino está escondida dentro de você, em sua alma. Se você purificar a alma, ali verá os degraus da escada que deve subir.”

 

E João de Cárpato diz: “É preciso grande esforço e luta na oração para alcançar aquele estado da mente que é livre de toda perturbação; é um céu dentro do coração (literalmente ‘intracardíaco’), o lugar onde, como o apóstolo Paulo assegura, ‘Cristo está em vós’” (2Cor 13,5).

 

Em suas falas, os monges do deserto nos indicam uma visão bastante holística de oração. Eles nos afastam de nossas práticas intelectuais, nas quais Deus se transforma em um dos muitos problemas com os quais temos de lidar. Mostram-nos que a verdadeira oração penetra no âmago de nossa alma e não deixa nada sem tocar. A oração do coração não nos permite limitar nosso relacionamento com Deus a palavras interessantes ou emoções piedosas. Por sua própria natureza, essa oração transforma todo o nosso ser em Cristo, precisamente porque abre os olhos de nossa alma à verdade de nós mesmos e também à verdade de Deus. Em nosso coração passamos a nos ver como pecadores abraçados pela misericórdia de Deus. É essa visão que nos faz clamar: “Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim, pecador”. A oração do coração nos exorta a não esconder absolutamente nada de Deus e a nos entregar incondicionalmente a sua misericórdia.

 

Assim, a oração do coração é a oração da verdade. Desmascara as muitas ilusões sobre nós mesmos e sobre Deus e nos conduz ao verdadeiro relacionamento do pecador com o Deus misericordioso. 

 

(Extraído do livro “A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo – O Caminho do Coração” – por Henri J. M. Nouwen – Ed. Loyola – 2000.)

Como temos orado sobre nossas crianças? Sobre nós mesmos? Como podemos orar? O que a vida de pessoas entregues à oração pode nos ensinar neste Mutirão Mundial de Oração? É preciso querer encarar o silêncio, a verdade, é preciso querer aprender a orar. É preciso ensinar as crianças a orarem, a serem amigas de Jesus. É Ele quem nos segura nas mãos, é Nele que a vida encontra sentido e verdade – e vida plena! Oremos pelas crianças. Oremos pelo nosso próprio coração. Ele nos chama! Aleluia!

 

Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas.

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