Ademir Fernando: as dificuldades da vida só intensificam o desejo de ser um bom pai

 Ademir Fernando: as dificuldades da vida só intensificam o desejo de ser um bom pai

Ademir Fernando, 53 anos, é um homem simpático cuja vida é um testemunho vivo do fato de que a paternidade pode ser uma força motriz que nos leva a perseverar mesmo diante dos imprevistos que interrompem a nossa caminhada.

Quando o visitei, em outubro de 2021, o que vi me deu evidência suficiente de que essa família tinha um sonho para seu filho. A mãe queria que o filho se tornasse músico, o pai queria que o filho se tornasse jogador de futebol. Ambos queriam que seu único filho fosse bem-sucedido na vida, que ele subisse na vida e fosse um cidadão íntegro. Não é tão comum encontrarmos definições tão precisas dos pais sobre o que desejam como futuro para seus próprios filhos.

Leonel não deixou isto incomodar. Vimos, durante nossa visita, que ele estava se divertindo enquanto os pais falavam sobre todos os diferentes planos e estratégias que haviam empregado ao longo do tempo. No final, ele disse que havia se beneficiado porque pertencia a um clube de vôlei e podia tocar violino à vontade.

Mas a história que ocupou o primeiro plano em nossa visita, confirmada por uma bala de tiro que passamos de mão em mão para que a examinássemos, foi de quando o pai teve de ser levado para o pronto-socorro porque tinha sido atingido por uma bala perdida.

Ademir Fernando, na época com 40 anos de idade, estava voltando do trabalho para casa no mesmo momento em que a polícia e uma quadrilha de tráfico de drogas trocavam tiros, a poucas quadras de sua casa. Um desses tiros atingiu o Fernando por trás. A bala não saiu do corpo e ele perdeu muito sangue. A equipe médica do pronto-socorro decidiu que ele precisava recuperar parte de sua força antes de ser submetido a uma cirurgia para remover a bala. Além disso, havia riscos relacionados a danos nos nervos.

E assim começou a longa espera. Muitos obstáculos apareceram que impediam a realização de  sua cirurgia. Problemas de agendamento, burocracia, mudanças relacionadas à equipe médica, interrogatórios sobre o que havia acontecido. Em um caso como esse, para a polícia, seria menos problemático  se ele estivesse envolvido com o tráfico de drogas. Não, ele definitivamente não estava! Ele foi mais uma vítima da contínua batalha entre a polícia e as quadrilhas de tráfico de drogas pelo domínio nos bairros mais pobres de Recife, PE.

Embora tivesse uma licença de seis meses para apresentar ao seu empregador, após um mês, e ainda sem cirurgia, Fernando decidiu voltar ao trabalho. Ele  trabalhava em operações logísticas e, para chegar ao seu trabalho, precisava viajar cerca de 30 km de ônibus. Mas, argumentou: “Não vou arriscar meu emprego e o sustento da minha família por causa disso”. Apesar da dor, apesar da ferida aberta, apesar do risco de ter sua situação agravada, ele voltou ao trabalho.

Poucas semanas depois de seu retorno, a caminho do trabalho, ele sentiu algo sólido em seu traseiro e, quando olhou, a bala havia saído! Dois dias depois, ele recebeu a ligação convocando-o para a cirurgia. Para espanto total do médico, Fernando disse: “Não precisa, a bala está bem aqui em minhas mãos”.

Pai, filho e mãe riem ao se lembrarem. A vida aqui é assim, eles parecem dizer.

Esta semana, entramos em contato com Leonel. Ele não está se preparando para se tornar um jogador de futebol profissional nem um músico de renome mundial. Em vez disso, ele está seguindo uma carreira em engenharia mecânica a princípio em nível técnico e trabalha na Gerdau, oportunidade proporcionada como resultado do trabalho do Instituto Solidare que se esforça para ajudar jovens a ingressar no mercado de trabalho.. Ele está muito feliz com suas escolhas, muito feliz com todas as oportunidades* que seus pais buscaram para ele.

 

Ele disse sobre seu pai:

“Estou levando comigo para minha vida adulta tudo o que meu pai me ensinou. Quero passar isso para meu próprio filho, porque meu pai tem muitas lições de vida para ensinar.

Ele cresceu muito pobre e fez da missão de sua vida não deixar que ninguém de sua família sofresse o que ele teve de suportar. Ele visita minha avó todos os dias e pergunta se ela precisa de alguma coisa. Ele ajuda seu irmão porque meu tio não é capaz de se sustentar sozinho. Ele é rigoroso comigo porque sabe que tenho potencial para crescer. Não mereço o que tenho, mas primeiro Deus e depois meus pais me colocaram aqui, incentivando-me a aproveitar todas as oportunidades.”

 

*Uma das oportunidades que Leonel aproveitou ao máximo foi o programa técnico em engenharia mecânica industrial, que pode ser acessado por meio do projeto Alvo Certo do Instituto Solidare.

 

  • Por: Elsie Gilbert

2 Comentários

  1. Carlos Domingos da Silva

    Fiquei emocionado.
    Sou de Recife, nasci na várzea e fui para chã de cruz, aos 5 anos voltei para Várzea, minha rua hoje é um favela., Saí de lá aos 12 anos, meu saudoso pai veio trabalhar no Rio de Janeiro como encarregado de obra.
    Nós somos 9 irmãos éramos 10 mas um morreu atropelado.
    Lutamos com muita dificuldades, mas dos nove só dois não tem curso superior.
    Meus tiveram oportunidade de ver dois como professor universitário e com doutorado.
    Deus abençoou muito minha família.

    Responder
    • maosdadas_2i8pwf

      Olá, carlos!
      Nos alegra saber que tenha gostado do conteúdo.
      Que Deus continue o ensinando e abençoando.

      Responder

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