Élida de Freitas Fernandes é uma educadora social que coordena o projeto CCA São Domingos Sávio, um serviço de contraturno escolar que funcionou por mais de 20 anos na comunidade do Moinho, no Centro da cidade de São Paulo, na região da antiga Cracolândia. Com a desapropriação da comunidade, o projeto mudou de endereço, mas continua com o mesmo propósito: promover a educação integral de crianças da região.
Depois de 18 anos atuando na mesma instituição, acompanhando crianças, adolescentes, famílias e os muitos desafios de um projeto social, Élida nos conta como percebeu quando suas próprias raízes estavam precisando de atenção. Nesta conversa com a Rede Mãos Dadas, ela compartilha o que aprendeu sobre desacelerar, estabelecer limites, receber cuidado e permanecer na missão sem esquecer que, antes de servir, somos chamados a permanecer em Deus:
MÃOS DADAS: Já houve um momento em que você percebeu que precisava parar de olhar apenas para os “frutos” do seu ministério e começar a cuidar das suas raízes? Como isso aconteceu?
O que estava acontecendo por dentro que talvez não fosse visível para as pessoas ao seu redor?
ÉLIDA: Sim, são 18 anos atuando dentro da mesma Instituição, caminhando e gerenciando Projeto social dentro de uma comunidade junto as crianças adolescentes suas famílias e todos os desafios que o trabalho exige, eu percebi que por muitas vezes estava preocupada em cuidar das pessoas, atender ás necessidades, resolver problemas, fazer o Projeto acontecer e tinha deixado de olhar para mim. Por fora talvez todos ao meu redor enxergassem uma pessoa forte, disponível, comprometida com aquilo que Deus havia confiado em minhas mãos, mas por dentro existiam cansaços, preocupações e necessidades que eu mesma não conseguia compreender. Parar e olhar para dentro foi um processo e levou um tempo e algumas formações no qual eu participei. Entendi que desacelerar não significava abandonar a missão e que dizer NÃO as vezes era necessário, eu precisei aprender a permanecer de uma maneira mais saudável. E que antes de cuidar de tantas vidas, eu também precisava permitir cuidar da minha.
MÃOS DADAS: Quando você começou a olhar para suas raízes, o que descobriu que precisava ser cuidado em você — física, emocional, social e espiritualmente?
Houve alguma descoberta que surpreendeu você ou que demorou para reconhecer?
ÉLIDA: Foi um processo de perceber que eu não poderia continuar cuidando dos frutos se as minhas próprias raízes estavam pedindo atenção.
Fisicamente, percebi a importância de respeitar meus limites e entender que o corpo também fala quando estamos ultrapassando aquilo que conseguimos suportar, cansaços além do natural.
Emocionalmente, precisei olhar para alguns sentimentos que durante muito tempo foram ficando em segundo plano. Também precisei entender que recarregar minhas energias era necessário, momentos mais silenciosos, mais recolhidos, fazer algo que gosto me ajudou bastante.
Socialmente, percebi a importância de ter pessoas com quem eu pudesse compartilhar não apenas as responsabilidades, mas também a vida.
E espiritualmente, talvez essa tenha sido uma das descobertas mais profundas: eu precisava me relacionar com Deus, mas como uma filha que também precisa descansar e confiar Nele. Cuidar dos outros foi uma expressão muito forte da minha fé. Mas Deus foi me ensinando que permitir que Ele cuidasse de mim também é uma expressão de fé.
MÃOS DADAS: Cuidar das raízes muitas vezes significa diminuir o ritmo, estabelecer limites e aceitar que nem tudo continuará produzindo imediatamente. O que foi mais difícil para você nesse processo?
Foi difícil lidar com a espera, com a sensação de improdutividade ou com a necessidade de pedir ajuda?
ÉLIDA: Quando passamos muitos anos envolvidos com pessoas e com uma causa, podemos começar a acreditar que tudo depende de nós. Existe sempre alguém para atender, uma situação para resolver, uma necessidade que não pode esperar. Então, parar pode trazer uma sensação de culpa. Também foi difícil aceitar que nem tudo precisava ser resolvido por mim e que eu não precisava estar presente em todos os momentos. Aprender a estabelecer limites foi um processo (e ainda está sendo). Aprender a dizer “não”, quando necessário, sem sentir que estava decepcionando alguém, também. Foi nesse processo que comecei a entender que aquilo que ninguém vê é justamente o que está nos fortalecendo internamente
MÃOS DADAS: Que papel a sua fé em Jesus teve nesse processo de restauração?
Como você experimentou Deus não apenas como aquele que chama para servir, mas como aquele que cuida, sustenta e ensina você a permanecer?
ÉLIDA: Ao longo desses 18 anos, eu experimentei Deus muitas vezes como aquele que me chama para servir. Mas, em determinado momento, precisei conhecê-Lo de uma maneira diferente: como aquele que também me chama para descansar, permanecer e ser cuidada. Minha fé em Jesus me ensinou que eu dependo Dele para fazer absolutamente todas as pessoas que consigo alcançar o faço por amor a Ele, mas que sou filha antes de ser Serva. Isso mudou muita coisa dentro de mim. Passei a compreender que Deus não mede meu valor pelos frutos que consigo apresentar. Ele me conhece: conhece minhas dores, meus limites, minhas lutas e também aquilo que ninguém vê. Eu escolho permanecer, confiar e permitir que Deus fizesse em mim aquilo que eu não conseguiria fazer sozinha. O mesmo Deus que me enviou para cuidar de tantas pessoas também se importa profundamente em cuidar de mim.
MÃOS DADAS: Olhando para trás, quais frutos nasceram — a seu tempo — justamente porque você decidiu cuidar das raízes primeiro?
O que hoje você faz ou vive de maneira diferente no seu ministério, nos seus relacionamentos e na sua vida com Deus?
ÉLIDA: Depois de tantos anos trabalhando na Comunidade , aprendi que transformação é construída no relacionamento, na presença e na constância. São crianças que cresceram, adolescentes que se tornaram adultos, famílias com as quais caminhamos durante anos e histórias que continuam fazendo parte da nossa vida. Mas também percebo frutos dentro de mim: pedir ajuda, a respeitar meus tempos e que cuidar de mim não é deixar de cuidar dos outros. Não sou eu quem transforma as pessoas, eu posso estar presente, amar, orientar, criar oportunidades e caminhar junto, mas é Deus quem conduz cada história.
Nos meus relacionamentos, tenho aprendido a estar mais presente de verdade principalmente com a minha família não apenas disponível para resolver problemas. E na minha vida com Deus, tenho buscado uma fé baseada no permanecer e confiar, antes de eu ser chamada para dar frutos, sou chamada a estar enraizada Nele, autor da minha história Cristo Jesus.
Depois de tantos anos servindo, continuo acreditando no chamado. Mas hoje compreendo que servir também significa saber parar, respirar, receber cuidado e deixar Deus fortalecer aquilo que ninguém vê.
Que precioso! Parece que cuidar das raízes trata justamente de aprender que frutos visíveis precisam de um tempo próprio, certo, para nascer – e não há como acelerar isso de um modo realmente saudável. Há um trabalho silencioso acontecendo em nós enquanto permanecemos, descansamos e confiamos naquele que sustenta a nossa vida. Olhar para essa faceta da a vida de frutos da Élida te inspira a cuidar de raízes também? A mim, sim! Que mais educadores sociais encontrem esse caminho, essa é a nossa oração.
Débora Vieira é educadora cristã, psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas.
