Coragem para fugir, coragem para regressar

Coragem para fugir, coragem para regressar

Por Ana Meny de Jesus

Nasci no Quilombo, pequeno povoado localizado na zona rural de Sesmarias, no município de Sabinópolis-MG. Luíza, minha mãe, casou-se, teve dois filhos e separou-se em seguida, passando a viver só. Após o casamento, minha mãe teve mais quatro filhos de pais diferentes. Sou a quinta filha de seis irmãos. Quando nasci, uma irmã mais velha já havida sido passada para uma família de fazendeiros criar. Com ela, levaram também, um irmão. Trabalhavam, ganhando em troca, comida e roupas usadas. 

Em uma casinha de pau a pique coberta de sapé com apenas dois cômodos, moravam minha mãe, Luíza, meus irmãos e eu. Apesar da pobreza, me sentia feliz, brincava com bonecas feitas do miolo branco do pé de banana e carrinho feito de casco de abóbora seca.

Todas as manhãs, sentavam meus dois irmãos e eu no aterro do fogão de lenha e esperávamos ansiosos o café de garapa que nossa mãe servia na latinha, acompanhado de banana verde cozida. 

Um dia, estávamos como de costume brincando no terreiro de casa quando apareceu um homem de aspecto distinto que com a permissão de minha mãe, me levou para morar com sua família. Ao chegar para trabalhar na casa de dona Jezabel, filha do fazendeiro Caim, eu tinha seis anos e me lembro de ver móveis pela primeira vez. No Quilombo, tínhamos prateleiras e nossas camas eram feitas de pau a pique; no lugar de colchões, tínhamos esteiras de taboa. Eu andava desorientada pela casa. Eu procurava sem encontrar, o fogão de lenha para me aquecer no fogo. A casa só tinha fogão a gás e eu nunca tinha visto tal coisa. Eu sentia muitíssima falta do fogão de lenha da casa da minha mãe. 

Eu chorava bastante o que levava dona Jezabel batia em mim com o cinto. Ela era muito má. Apesar de minha origem no vilarejo Quilombo sugerir uma pele escura, sou branca e meus cabelos eram loiros e longos. Dona Jezabel raspou todo meu cabelo para não ter trabalho de penteá-lo. Minha irmã, Rosa que já trabalhava na casa, vinha escondida, me colocar no colo e era quando eu me sentia um pouco aconchegada. O casal tinha dois filhos: um menino surdo e uma menina pequena. Eu, com sete anos, era responsável pelo menino surdo o dia inteiro. Não podia brincar. Apanhava por qualquer motivo. 

Em dezembro de 1975, o casal e os filhos foram passear na fazendo dos pais da dona Jezabel. O combinado era que eu fosse visitar minha mãe primeiro, ficaria lá alguns dias e voltaria para cuidar dos filhos de dona Jezabel. Minha irmã Rosa ficaria mais tempo com nossa mãe. A casa grande de dona Jezabel era o pior lugar para qualquer criança da minha idade. Eu estava decidida a não voltar, nem pelos restos de comida gostosa que me serviam após suas refeições. Por nada. 

Inconformados de perder sua babá de sete anos que não lhes custava nada, foram até o fórum da comarca de Sabinópolis para me levar a força, alegando que minha mãe, não tinha condições psicológicas ou financeiras para cuidar de mim. Com medo de dona Jezabel me levar à força, minha mãe me escondeu na casa do juiz de paz do Quilombo. 

Depois que o casal obteve autorização legal para me levar, ficou marcado que o juiz de paz me levaria ao encontro deles. Antes de chegar ao local do encontro, soltei de sua mão e corri para dentro da mata, onde fiquei sozinha até o anoitecer. Dali voltei para a casa da minha mãe. O casal então desistiu. As autoridades ordenaram que minha mãe arrumasse um lugar seguro para morar e que me matriculasse na escola do Quilombo.

Em fevereiro 1976, fui matriculada na escola e fiquei morando em diferentes casas no Quilombo. Dependia da boa vontade das famílias para realizar os quatro anos do ensino fundamental. 

Sem recursos para continuar a estudar, parei os estudos e voltei para Belo Horizonte com 13 anos para trabalhar como doméstica. Naquele tempo, em Sabinópolis, só conseguia estudar os filhos de fazendeiros que tinham condições de morar no centro e assim, podiam cursar o técnico em magistério e contabilidade. Passei quatro anos sem estudar, trabalhando em Belo Horizonte. Ganhava pouco, e com esse pouco, comprava comida para minha mãe. 

Aos 13 anos, eu tinha dois sonhos: continuar estudando e ser irmã de caridade para ajudar as pessoas mais necessitadas. Na primeira infância, minha mãe tinha me ensinado a rezar o terço e ladainha.  Na adolescência, optei pela doutrina da Igreja Católica com muita devoção. Em 1984, voltei a estudar e fiz minha matrícula para cursar o ginásio à noite na escola do bairro onde trabalhava.

Nas férias de janeiro de 1985, fui visitar minha mãe. Dona Geneci, esposa do obreiro que pastoreava uma congregação da Igreja Evangélica Missionária Pentecostal, a 40 minutos a pé da casa da minha mãe, foi ali levar a palavra de Deus. Ao me ver, contou da Casa do Estudante que a igreja tinha em Sabinópolis para ajudar adolescentes carentes a continuar os estudos sem gerar custo algum para a família. Lá receberia todo o material escolar e alimentação gratuita. Ela estendeu o convite para mim. Mas como eu iria para um lugar desses? Se achava a doutrina dos crentes errada e só tinha como correta a Católica? O que faria com meu sonho de ser irmã de caridade? Resisti ao convite. 

Em Belo Horizonte, estudando à noite e sem tempo para as tarefas escolares, comecei a sentir tudo muito pesado. Então, repensei sobre a generosa oferta da Dona Geneci. Insegura, pedi à Rosa, minha irmã, para ver se havia vaga para mim na Casa do Estudante em Sabinópolis. Não havia! No entanto, milagrosamente, decidiram me receber assim mesmo. 

Nunca fui tão bem recebida como fui por Espedita, coordenadora da Casa. Lembro-me que ela pegou minha trouxinha de roupas e subiu as escadas do escritório para preencher meus papeis com minha irmã. Eram 15 meninas, todas oriundas da zona rural de arredores de Sabinópolis. Eu fui a décima sexta. Logo, Espedita desceu com um presente para mim: uma linda Bíblia. Era o início de uma nova vida. 

Morei na Casa do Estudante por quase 7 anos, 2 anos e meio para cursar o ensino médio e 4 de ensino técnico em magistério. Tudo que não encontrei no mundo, eu encontrei no meio dos crentes, dos quais não gostava. Espedita tinha muita paciência comigo. Tenho até hoje, as cartas que ela amorosamente escrevia com versículos da Bíblia para me encorajar. A partir das cartas, fui percebendo que muito do que eu pensava a respeito de Deus não estava de acordo com a Bíblia. Não era necessário fazer tanto sacrifício para ser perdoada de meus pecados, não precisava rezar tantas ave-marias como fiz na minha primeira comunhão no Quilombo. Comecei a me sentir aliviada, meu coração aos poucos, encontrou a paz. 

Em junho de 1988, tomei a decisão de servir ao único Senhor e Salvador, Jesus Cristo, e até hoje, isso me traz tranquilidade: um dia vou morar com Cristo no céu. Minha vida se baseia nos princípios espirituais e morais que aprendi na Casa do estudante: família, caráter, integridade, respeito, amor, fidelidade.

Em fevereiro de 1989, a Bem Estar do Menor, organização social que gerenciava a Casa do Estudante, me convidou para trabalhar formalmente na instituição. Em 30 anos de BEM, auxiliei em várias funções: como secretária do setor agropecuário, setor de compras e estoque, além do almoxarifado e limpeza. Sou muito grata a Deus que me abençoou com uma casa grande de dois andares, fruto desse trabalho. 

Até 2008, não tinha filhos, mas o Senhor Jesus providenciou duas crianças abandonadas pela mãe. Pedro tinha 5 anos e Maria, 4 anos quando vieram morar comigo. Eles são lindos, e com tudo que aprendi, tenho tentado ser uma boa mãe conduzindo-os no caminho do Evangelho de Jesus Cristo. Eles são ativos na igreja, Pedro (com 16 anos) toca bateria no louvor, Maria (com 15 anos) está aprendendo a tocar violão. Eles amam a Jesus e isso é lindo. 

Também adotei a vovó Gabriela com 98 anos que já está acamada. Eu cuido dela e de minha mãe, com 86 anos. Tenho uma família diferente composta por duas idosas e dois adolescentes. Servir a minha mãe, a vó Gabriela, meus filhos e outras pessoas é um prazer para mim. Considero-me hospitaleira, talvez porque aprendi o quanto a hospitalidade faz falta na vida das pessoas.

Aos 7 anos, fui muito mal recebida, aos 17 fui recebida como se recebe a um anjo. A Ana Meny que entrou para a Casa do Estudante porque queria continuar seus estudos, encontrou muito mais que o conhecimento. Ela encontrou uma pessoa que a adotou para a família de Deus: Jesus Cristo. A Ana Meny sem infância se tornou uma mulher capaz de defender o direito à infância daquelas crianças mais vulneráveis.

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Ana Meny é a vencedora do Prêmio Cida Mattar 2019. Trabalha na Bem Estar do Menor (BEM), em Sabinópolis-MG, parceira da Rede Mãos Dadas. E mãe do Pedro e Maria.


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1 Comentário

  1. GLEISON

    Linda Historia … Deus age em tudo… que a Graça Divina continue em sua vida.

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