Dia 3: “As crianças à beira do caminho – A igreja do mestre da lei parte 1”

O artigo a seguir é uma adaptação da palavra do pr. Ariovaldo Ramos dirigida a 29 pessoas reunidas para o I Encontro de Educadores Sociais Cristãos, organizado por Mãos Dadas em julho de 2008. Decidimos reproduzi-lo nesta edição porque suas palavras expressam bem a convicção dos que participam da Rede Mãos Dadas e fortalecem o nosso compromisso com Deus e com as crianças brasileiras que estão à beira do caminho.

A situação do mestre da lei retrata bem o estado da igreja brasileira. Temos pensadores e teólogos de todos os tipos, temos ótimas escolas de teologia, mas continuamos sendo uma igreja que sabe “tudo” sobre Deus, mas não sabe a quem amar.

A melhor coisa que a igreja pode fazer onde quer que esteja inserida para pregar o evangelho é demonstrar o amor de Deus, marca básica do seu reino. Por que temos tanta dificuldade em fazer o pastor entender isso? É muito claro, é só olhar para a criança recém-nascida. Ela sabe que a mãe a ama por causa de tudo que a mãe faz por ela. Não é um sentimento abstrato, está no toque das mãos, no colo, no alimento, no cuidado, na voz. Algo muito prático. Mas nós, pastores e suas igrejas, não conseguimos entender isso, porque o evangelho que nós temos no Brasil é o evangelho do mestre da lei: um evangelho capaz de dizer “Eu sei o que é amar a Deus, mas não sei quem é o meu próximo”.

Nossa igreja é marcadamente teórica. A maior prova disso é que ela gira em torno do púlpito. O pastor brasileiro é contratado pelo que é capaz de fazer durante uma hora e meia, uma vez por semana.

Jesus nos ensina que devemos ser próximos daquele que precisa da nossa ajuda. Ver essa pessoa é o primeiro passo. E essa visão é deflagrada pela compaixão, que é a grande marca do samaritano. Jesus fez questão de frisar que outros dois homens — um levita e um sacerdote — também tinham visto o que estava ferido. Mas só o samaritano se compadeceu. Não é uma questão de ver com os olhos, mas sim com o coração.

A compaixão é necessariamente fruto da identificação. Você se compadece de alguém com quem se identifica. Ao vê-lo, se imagina no lugar dele e diz “poderia ter sido comigo”. Se o samaritano tivesse passado antes do moço, ele provavelmente teria sido o assaltado. Seria ele o homem à beira da estrada. A compaixão que não se coloca no lugar do outro é egoísta, porque é uma compaixão da filantropia, não da comunhão. Ela faz com que eu olhe o outro como se ele fosse um ser inferior a quem eu posso dispensar um pouco do meu tempo, dos meus recursos, das minhas possibilidades — afinal de contas, não me custa nada.

Ariovaldo Ramos