Dia 4: “As crianças à beira do caminho – A igreja do mestre da lei parte 2”

O artigo a seguir é uma adaptação da palavra do pr. Ariovaldo Ramos dirigida a 29 pessoas reunidas para o I Encontro de Educadores Sociais Cristãos, organizado por Mãos Dadas em julho de 2008. Decidimos reproduzi-lo nesta edição porque suas palavras expressam bem a convicção dos que participam da Rede Mãos Dadas e fortalecem o nosso compromisso com Deus e com as crianças brasileiras que estão à beira do caminho.

Jesus fez questão de afirmar que estava falando de um samaritano. Seus ouvintes discriminavam os samaritanos considerando-os uma raça inferior e herege, um povo que não sabia nada sobre Deus e se metia a falar dele.

Na parábola havia três judeus. Um deles foi assaltado e abandonado à beira do caminho. Dois outros judeus passaram ao largo. Todos iguais ao mestre da lei, gente que sabe o que é amar Deus. Então passou o samaritano que, ao contrário do mestre da lei, não sabia nada sobre Deus, mas sabia a quem amar.

Você percebe a ironia na fala de Jesus? É como se ele dissesse: “É o samaritano, lembra dele? Aquele sujeito que não sabe nada sobre Deus, aquele sujeito que você despreza. Mas ele viu, e se compadeceu”. Jesus chama a atenção do mestre da lei para o racismo deste. A denúncia se estende aos outros ouvintes também. “É verdade, nem você nem a sua cultura sabem a quem se deve amar, porque vocês segregam, marginalizam, o samaritano. Vocês não entenderam qual foi o chamado de Abraão. Um povo que tem a vocação de ser uma benção para todas as famílias da terra não tem a prerrogativa da segregação”. Segregação por parte da igreja, povo de Deus, contradiz a sua missão, a sua razão de existir, a sua razão de ser.

Além de denunciar a ética do mestre da lei e de seus contemporâneos, Jesus mostra o que deve ser feito: você tem de sair do seu conforto e ir para o lugar de desconforto do outro. Identificar-se com ele e fazer tudo o que for possível para tirá-lo dali e trazê-lo para o seu lugar de conforto. Todos esses movimentos exigirão o sacrifício de se dispor e disponibilizar tudo o que é seu, porque aquele que você viu que precisa de você, se torna imediatamente sua prioridade. Você ajuda o outro no seu estado de desconforto, de modo a dar-lhe condições mínimas de reação, traz a pessoa para o seu estado de conforto, e leva-o a um lugar onde ele possa ser plenamente recuperado. E é exatamente esse o movimento que o samaritano faz. O pastor presbiteriano Dídimo de Freitas chama esse movimento de “teologia da ação social”.

Uma das razões porque nós temos tantas denominações evangélicas é porque nós sabemos demais e nos dividimos por conta de detalhes. Elaboramos verdadeiros tratados sobre Deus, mas não sabemos a quem devemos amar.

A maior denúncia de Jesus na parábola do bom samaritano é: “Será mesmo que você sabe de Deus se você não sabe a quem deve amar?” A grande questão que Jesus levanta para o mestre da lei é: “Além de ter feito a pergunta errada, tem mais um detalhe que eu preciso lhe dizer: será que você sabe mesmo sobre Deus? Porque quem sabe de Deus sabe a quem deve amar, pois Deus é amor”.

Da mesma forma, algo na vida da igreja brasileira está profundamente errado: uma igreja que segue a Deus, que diz conhecer a Deus e saber o que é amar a Deus, tem de saber a quem se deve amar, tem de falar menos e agir mais. Este é o grande desafio de se fazer uma missão integral no Brasil. É difícil perceber que não há outra maneira de falar de um Deus que é amor se não for por meio de atos de amor que dão conteúdo a qualquer palavra que a gente queira dizer. Quem segue um Deus assim não pode ter palavras vazias.

Ariovaldo Ramos