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Muitas tias também são mães!

Em 23 de novembro de 2021, Sueleide, 46 anos, mãe de Nayara e Sayonara e tia de Jenyffer, faleceu devido a sequelas deixadas pelo COVID e uma tuberculose antiga que voltou a dominar o seu sistema. Uma equipe enviada pela Happy Child em outubro, ou seja, apenas um mês antes, tinha entrevistado Sueleide sobre seus planos para as filhas e sobrinha. De acordo com Sueleide, sua melhor decisão como mãe solteira, tinha sido a de levá-las, primeiro para o projeto social do Instituto Solidare e mais tarde para a própria igreja, Igreja Batista do Coqueiral, Recife, PE. Ela não separava as duas coisas, projeto e igreja. Em sua visão, aquele espaço era uma comunidade viva, onde havia esperança, amor, e muita energia, capazes de impulsionar suas filhas e sobrinha a um futuro promissor.

Um mês depois desse depoimento, ela se foi. 

Conversarmos com a sobrinha, Jennyfer, com 19 anos na época, 21 agora, e pedimos que nos contasse um pouco mais sobre sua tia Sueleide. Ela nos enviou oito longos áudios que transcritos deram quase 3.000 palavras! Aqui está alguns trechos do depoimento da Jennyfer.

Ela tinha prazer em cuidar de mim:
“Falar da minha tia Sueleide é um prazer. Hoje em dia, ela é minha maior inspiração. Foi ela quem me ensinou a ser a menina, a mulher, a Jenyffer, que sou hoje em dia. Vitória. Era assim que ela me chamava. Ela tinha prazer em cuidar de mim como se fosse a minha mãe e não deixava ninguém mexer comigo.”

 

Ela me defendia:
Eu nasci com uma má formação congênita e eu aprendi a me aceitar por conta dela. Porque ela me influenciava muito e mostrava que minha deficiência era só uma deficiência e que eu era capaz de superar qualquer coisa. Eu não tenho a primeira, segunda e a terceira falange. E por conta disso, sempre houve pessoas interessadas em saber o “porquê”. Uma vez, perguntaram se minha mãe tinha tentado me matar. Isso foi o cúmulo para mim e para ela também. Ela sempre rebatia e mostrava para a pessoa como estava sendo inconveniente. 

Durante minha infância foram acontecendo várias outras coisas e por isso eu tinha vergonha na minha mão, e a escondia nas fotos. Mas ela sempre me encorajou a me aceitar como eu sou. Não era por conta de uma falange que eu ia deixar de ser quem eu sou ou de ter resiliência e coragem.

 

Ela me ensinou a superar a minha deficiência:
Eu precisei aprender a fazer as coisas do meu jeitinho, para eu poder me adaptar e conseguir fazer as coisas. Eu não conseguia lavar o copo antes. Eu fui aprendendo na prática. Eu tenho um polegar e o polegar me auxilia na pegada. Então ela me animava: “Ah, faz isso.” ou “Pega assim”, e eu precisava pegar mesmo para poder ter a prática. Assim ela foi me ensinando. 

Minha mãe também estava lá pra me ajudar. Ela tinha muito medo que eu me queimasse por conta da minha mão, pois eu tenho pouca sensibilidade para sentir o calor. Demora dois segundos para identificar que tem água quente na minha mão. Então, ela não deixava, mas eu por ser teimosa, eu fazia. Lavava prato ainda pequenininha, fritava ovos, varria a casa, arrumava as coisas, lavava roupa.

A única coisa que eu não sei fazer hoje em dia é escrever com a minha mão direita. Também não consigo auxiliar a outra mão. Se eu estou usando a esquerda a direita tem que estar livre porque se eu forçar ela dói. Então minha tia sempre teve o cuidado de não deixar eu pegar coisas pesadas ou ir mexer no fogo sozinha.

Sei mexer no computador, sei digitar. Tudo isso fui aprendendo aos pouquinhos. Com as palavras dela “Vai Vitória, faz isso, você consegue”. Porque ela sabia, que eu podia aprender e podia repassar para as outras pessoas que estivessem ao meu redor. Então, com isso tudo eu fui aprendendo a me adaptar. Tanto, que nem precisei usar o meu status de portadora de necessidade especial para conseguir o meu primeiro trabalho.

 

Ela me ensinou a lutar pelo meu direito:
Uma vez, estávamos no shopping e fui pagar uma conta. Fui para a fila preferencial e uma mulher começou a questionar porque eu estava ali. Não respondemos à mulher porque minha tia sempre me disse que eu tinha que fazer valer o meu direito. E que eu não precisava falar o “porquê” que eu estava ali. Depois de muita insistência da mulher, minha tia falou que não tinha que mostrar nada para ela, apenas para a pessoa que estava no caixa. Ela me ensinou que eu não precisava expor minha deficiência para pessoas aleatórias. Quando chegamos no caixa, eu mostrei minha carteirinha de deficiente. Era um direito meu, e pronto.  E para mim, isso foi a minha maior quebra de tabu.

 

Ela lutava muito para prover para nós:
Houve um tempo que ela trabalhou em dois empregos. Um pela manhã e o outro à noite para poder sustentar a casa. Ela terminou os estudos e foi à luta. Sempre ia atrás de tudo para nós. Sempre. E nunca deixou faltar nada.

 

Ela buscava muitas oportunidades para nós:
Ela me levou para o meu primeiro dia de aula no ensino fundamental. Tive o meu primeiro emprego através dela. Uma mulher de coração lindo, que se preocupava, que ia atrás, que corria, que não media esforços para poder ajudar as pessoas. Sempre mostrava que estava ali com a gente em todos os momentos. Quando eu, Nayara e Sayonara éramos pequenas, fazíamos parte de um projeto social e ela participava de todas as reuniões e trabalhava como voluntária. Ela sempre dava o máximo pra ficar na igreja, perto de nós.

E acabou que nós quatro nos tornamos voluntárias e membros da igreja. Saionara ainda permanece voluntária hoje em dia. Como eu estou trabalhando de manhã e fazendo curso à noite eu não consigo ir lá pra poder ajudar. E era algo que ela fazia com prazer. Então eu quero voltar a fazer isso novamente. Minha tia foi e continua sendo uma grande influência na minha vida.

 

Ela me ensinou a ser alegre:
Falar dela é lembrar que foi uma pessoa corajosa, que não tinha tempo ruim, sabe? Ela amava a festa, então em todas as datas comemorativas que temos, nos reunimos e fazemos em memória dela, pois se ela estivesse viva ela ia querer que acontecesse. Ela sempre nos incentivou pra tudo, para correr atrás dos sonhos. Quando a gente errava, ela estava lá, mostrava quando estávamos indo bem em algo e dava parabéns. Dizia: “Olha, nisso você pode melhorar, mas nisso aqui você fez muito bem” Sempre dava um feedback encorajador para nós. A gente sempre ficava muito alegre perto dela.

E a visão dela, e que hoje dá frutos, era o nosso futuro. Pois hoje em dia vivemos com muita paciência, assim como ela tinha conosco. Ela nos ensinou a sempre estudar, buscar o melhor para nós.  Hoje em dia a gente faz exatamente isso! Nós terminamos os estudos como ela sempre quis que fizéssemos. Nós trabalhamos. Eu, as filhas dela, Saionara e Naiara, e os meus irmãos Lucas e Mateus, ganhamos cada um o nosso dinheirinho, e era isso que ela queria pra nós; que déssemos o nosso melhor no que estávamos fazendo e que procurássemos melhorar, sempre.

 

Escrito por Jenyffer, editado por Elsie Gilbert.

 

 

 

 

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