O desafio da inclusão de crianças com deficiência na igreja – Parte 3

O desafio da inclusão de crianças com deficiência na igreja – Parte 3

Reproduzimos abaixo um trecho do livro “Deficiente – O desafio da inclusão na igreja” escrito pela missionária Brenda Darke, inglesa, radicada na Costa Rica. O livro é fruto da preocupação de longa data da autora que não aceita ver uma igreja que reproduz os preconceitos culturais e se distancia da prática do amor exigido por Jesus.

 

Peregrinação pessoal da autora

Por Brenda Darke

Muitos anos atrás, na Inglaterra, quando comecei meus estudos em educação para crianças com necessidades especiais, nunca imaginei que um dia fosse trabalhar com essa população na América Latina, em um contexto tão diferente do ambiente de meu próprio país.

Tudo o que aprendi na universidade, e muito mais nas escolas onde trabalhei, impactou imensamente a minha vida e mudou minhas prioridades. Apreciei meus anos como professora; no entanto, não cheguei a fazer nenhuma reflexão profunda e bíblica sobre a vida das pessoas com deficiência.

Como cristã, interessava-me por todos, mas, além de apenas trabalhar, queria ainda ganhar dinheiro ou adquirir bens, e ver minha família crescer. Em razão da minha formação na Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (CIEE), aprendi os princípios e valores bíblicos, e então me preocupei em seguir os passos de Jesus. Cristo fez tudo por nós e agora devemos aceitar seu sacrifício na cruz e viver por ele, mostrando nosso amor e gratidão por meio de nossas ações e obediência. Minha motivação pessoal sempre foi o amor de Cristo por mim e seu chamado para sair em busca de outros, a fim de lhes falar sobre Deus e seu reino. A missão integral, na qual se contemplam todos os aspectos de uma pessoa – o espírito, o corpo, a mente e as emoções – o que, repetidas vezes encontramos nos ensinamentos de Jesus, foi a meta que me empurrou para fora do meu contexto e cultura.

Apesar disso, não conseguia entender que a população de pessoas com deficiência é um “povo não alcançado” pelo evangelho. Essas pessoas vivem hoje em nossos bairros, geralmente com suas famílias, como um “subgrupo” ou uma “subcultura” de nossa sociedade, e somente um pequeno número delas frequenta a igreja. Poucas igrejas buscam-nas com o evangelho ou como apoio pastoral. Em certo sentido, elas são invisíveis, subsistem na mesma comunidade, mas são esquecidas e excluídas. Provavelmente sabem muito pouco do evangelho, como se fossem membros de algum povo distante, para o qual se enviam “missionários”. Eu mesma não me dava conta dessa realidade.

Mais tarde, quando fui com minha família trabalhar no Peru, nunca havia me ocorrido que estava indo para a América Latina a fim de fazer uso das minhas experiências de trabalho com pessoas com deficiência. Depois de colaborar com os grupos da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos no Peru e na Costa Rica por alguns anos, decidi mudar minha abordagem. Nossa organização missionária – Latin Link – ofereceu-me a oportunidade de dedicar um período sabático ao estudo da teologia da deficiência.

Foi um novo chamado para mim. Durante os anos em que estive envolvida em outras questões, o mundo formado por pessoas com deficiência tinha se alterado completamente. A linguagem mudara, assim com as políticas, e novas lei foram criadas. Em muitos lugares a infraestrutura estava melhor e, o mais importante, as atitudes começaram a se transformar. Além disso, descobri algo surpreendente: alguns cristãos que escreviam sobre o assunto utilizavam a Bíblia para defender suas teses. Já não se tratava de um estudo acadêmico ou secular; tornara-se um campo missionário.

Pela primeira vez, encontrava livros e artigos teológicos sobre pessoas com deficiência. Por mais que minha motivação se ancorasse em minha fé, eu nunca havia estudado a Bíblia com essa abordagem. Comecei a perceber alguns textos na Palavra de Deus que nunca antes tinha notado. Minha aventura começava! O Senhor usou meu tempo de ano sabático para convencer-me de que meu trabalho na América Latina devia ser realizado sob enfoque da inclusão da pessoa com deficiência.

Mensagem de esperança

Desejo compartilhar com vocês aquilo que encontrei. É uma mensagem de esperança e de amor, que objetiva a inclusão da pessoa com deficiência e de sua família. Essa mensagem reconhece o direito a uma vida plena dos que são obrigados a viver com alguma deficiência; busca a participação ativa dessas pessoas na sociedade. Elas têm estado tão negligenciadas que, em muitos casos, é preciso começar do zero. Este é o caminho a seguir.

Entendemos que a pessoa que traz alguma deficiência também possui dons e talentos. Ela tem também um caminho e um processo diferentes, o que exige que aceitemos o desafio de pensar para além da atenção assistencial. Somos instigados a nos comprometer com o desenvolvimento dessa pessoa e a lhe oferecer o espaço a mais como discípulo de Jesus.

Veremos novos paradigmas que podem mudar as atitudes. Devemos permitir que a Palavra de Deus fale conosco. Historicamente, as pessoas com deficiência têm sido discriminadas em todas as áreas da vida. Embora seja muito difícil, precisamos reconhecer que nós, a igreja, não estamos fazendo todo o possível para incluí-los em nosso campo de ação. Muitas vezes agimos de forma discriminatória, sem perceber e sem pensar nas possíveis consequências disso. Como igreja, pouco temos refletido teologicamente, e essa falha é percebida na ausência de pregações que abordem o tema “deficiência”. Como o assunto geralmente não é inserido no currículo dos seminários e faculdades teológicas do continente, não é de se estranhar que os pastores não saibam como pregar sobre o assunto. Portanto, estamos falhando mais por omissão ou negligência do que propositadamente. Eu mesma falhei, apesar de minha formação acadêmica e da experiência adquirida. Eu não conseguia entender que o reino de Deus também se destina a todas as pessoas com deficiência e que elas podem atuar nele. De qualquer forma, elas não precisam e não querem nossa comiseração; desejam, sim, nossa colaboração.

Ninguém que ame verdadeiramente a Deus age de forma deliberada para prejudicar ou magoar um indivíduo com deficiência, mas faz isso por desconhecimento da existência de um caminho melhor. Em nossa cultura, a marginalização e a exclusão têm sido tão normais que, até recentemente, ninguém questionava a falta de envolvimento deste grupo, quando então a própria sociedade começou a se tornar consciente do fato. A igreja pode agora se aproveitar das muitas normas, dos acordos internacionais e das legislações nacionais sobre o tema para agir com mais empenho e garantir um tratamento mais justo e inclusivo. Espero que o leitor esteja pronto para uma aventura diferente, para percorrer um caminho desconhecido. Mas valerá a pena.

Leia o primeiro trecho: No caminho

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2 Comentários

  1. Júnia Lemos

    Que assunto maravilhoso. Sou filha de deficiente e nunca tinha me atentado para a inclusão deles na igreja…somos contaminados pela cultura de forma impressionante.
    Agradeço imensamente por me despertar para a verdade da importância dessas pessoas no Reino de Deus.

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    • Equipe Mãos Dadas

      Oi Júnia! Que maravilha saber que nossas postagens estão despertando as pessoas para algo tão importante e que realmente, não sabíamos mesmo. Deus te abençoe. Volte sempre!

      Responder

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