Hoje vamos meditar rapidamente na história e na postura de um pai adotivo. Na verdade, um primo mais velho que se responsabilizou por sua sobrinha pequena, órfã.
De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados, ficamos perplexos, mas não desesperados. (2 Coríntios 4:8)
Este é o 2º texto da série meditando em 2 Coríntios 4:8-9. Estamos tentando pensar em histórias práticas que nos sejam modelos palpáveis, histórias reais que nos sejam exemplo de como podemos percorrer o Caminho de sofrimento que Jesus nos convida a trilhar. Precisamos de referências para entender mais como isso funciona. E hoje vamos olhar para Mardoqueu. Lembra dele? Primo de Ester. A história nos conta que ele orienta prima mais nova a não revelar sua identidade judia, mas, sim, a apresentar-se ao rei como opção ao trono. Ester ouve, passa pelo processo seletivo e sai vitoriosa – é agora rainha de toda a Pérsia.
Em um dado momento da história ele não se curva a uma das autoridades do reino, Hamã. E por conta disso esse homem declara guerra aos judeus. Todo o povo judeu agora estava sofrendo porque Mardoqueu não se dobrou a valores constrários á sua fé. Ele sofreu muito com isso. Não negou seu espanto e angústia com esse quadro. Tudo o deixou perplexo, sim. Ele não fugiu de sofrer e demonstrar o quanto tudo isso o deixou triste e inconformado. Qual foi o movimento dele? Clamar e lamentar. Mardoqueu lamentou.
Você sabe lamentar? Há uma diferença importante de lembrarmos aqui: o lamento é diferente da reclamação. O primeiro olha a realidade, o segundo olha para o que “deveria ser” e não é (“que droga que isso aconteceu”, “tudo é tão injusto”). Lamentar é diferente. É olhar de verdade para o que está diante de si. E contemplar. Esse processo é muito difícil. É complicado olhar um fato triste ou caótico e encará-lo. Muitas vezes não há o que ser feito diante do que se observa.
Mas o lamento é característica do povo de Deus. Do povo que sabe que “há tempo de chorar” (Eclesiastes 3:4). Temos um livro na Bíblia chamado Lamentações de Jeremias. Há também muitos Salmos de lamento na Bíblia (Salmo 13, Salmo 22, Salmo 42, Salmo 77, Salmo 86…). E vemos muitos exemplos de lamentos na Palavra. Precisamos aprender a lamentar diante do que nos deixa perplexos. Deixar o tempo necessário para conversar com nossa alma diante da dor. Mardoqueu, esse pai adotivo, nos ensina. Sua prima (filha), Ester, precisava se lembrar disso também. E sua própria postura a ensina. É precioso vermos juntos esta parte da história:
Ester 4
Quando Mardoqueu soube de tudo o que tinha acontecido, rasgou as vestes, vestiu-se de pano de saco e cinza, e saiu pela cidade, chorando amargamente em alta voz. Foi até a porta do palácio real, mas não entrou, porque ninguém vestido de pano de saco tinha permissão de entrar. Em cada província onde chegou o decreto com a ordem do rei, houve grande pranto entre os judeus, com jejum, choro e lamento. Muitos se deitavam em pano de saco e em cinza. Quando as criadas de Ester e os oficiais responsáveis pelo harém lhe contaram sobre Mardoqueu, ela ficou muito aflita e mandou-lhe roupas para que ele as vestisse e tirasse o pano de saco; mas ele não quis aceitá-las. Então Ester convocou Hatá, um dos oficiais do rei, nomeado para ajudá-la, e deu-lhe ordens para descobrir o que estava perturbando Mardoqueu e porque ele estava agindo assim. Hatá foi a Mardoqueu na praça da cidade, em frente à porta do palácio real. Mardoqueu contou-lhe tudo o que lhe tinha acontecido e quanta prata Hamã tinha prometido depositar na tesouraria real para a destruição dos judeus. Deu-lhe também uma cópia do decreto que falava do extermínio, que tinha sido anunciado em Susã, para que ele o mostrasse a Ester e insistisse com ela para que fosse à presença do rei implorar misericórdia e interceder em favor do seu povo. Hatá retornou e relatou a Ester tudo o que Mardoqueu tinha dito. Então ela o instruiu que dissesse o seguinte a Mardoqueu: Todos os oficiais do rei e o povo das províncias do império sabem que existe somente uma lei para qualquer homem ou mulher que se aproxime do rei no pátio interno sem por ele ser chamado: será morto, a não ser que o rei estenda o cetro de ouro para a pessoa e lhe poupe a vida. E eu não sou chamada à presença do rei há mais de trinta dias. Quando Mardoqueu recebeu a resposta de Ester, mandou dizer-lhe: “Não pense que pelo fato de estar no palácio do rei, de todos os judeus só você escapará, pois, se você ficar calada nesta hora, socorro e livramento surgirão de outra parte para os judeus, mas você e a família de seu pai morrerão. Quem sabe se não foi para um momento como este que você chegou à posição de rainha?” Então Ester mandou esta resposta a Mardoqueu: Vá reunir todos os judeus que estão em Susã, e jejuem em meu favor. Não comam nem bebam durante três dias e três noites. Eu e minhas criadas jejuaremos como vocês. Depois disso irei ao rei, ainda que seja contra a lei. Se eu tiver que morrer, morrerei”. Mardoqueu retirou-se e cumpriu todas as instruções de Ester.
A filha pareceu se esquecer. Mas a vida do pai adotivo a ensina. Ela ouve. Ela vê. Ela aprende a lamentar diante do que precisa de lamento. Há um Deus maior que a situação. Não é preciso o desespero. Mas é preciso o clamor. É preciso pedir, é preciso! Que essa história, por si só nos ensine hoje. Justamente porque não vemos um pai com todas as respostas, mas um pai que paga o preço de mostrar na pele o que queria ensinar. Justamente a falta de respostas dele ensinou a postura que a filha deveria ter. Que tenhamos coragem e ousadia de aprendermos a lamentar diante do que nos deixa perplexos.
Assim sendo, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade. (Hebreus 4:16)
Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas
