O Caminho da Páscoa
Estamos na semana santa e o Senhor tem me feito meditar sobre a realidade da vida, tantas vezes cruel e difícil de assimilarmos. Ando o Caminho com amigos de ministério, irmãos de estrada, educadores cristãos, e ultimamente em nossas trocas temos falado da dor que vem por vezes tão-tão forte, vem para todos nós. Os porquês são complicados de responder, a fé é desafiada demais. A conta não fecha. E isso ocorre ao olharmos para nossa vida adulta, ao olharmos para a realidade de tantas crianças que desde tão novas carregam uma demanda tão imensa, que não cabia a elas… São tantas as histórias por aqui, e com certeza você também conta as suas. E o ponto é: elas não desaparecem quando cremos em nosso Senhor. Muitas vezes cremos que elas deveriam ser diferentes, mas o fato é que não são. A realidade é dura, bem dura. Ela não pede licença, não se explica, e não vai embora “antes da hora”, quando queremos. A realidade é o Caminho do cristão, tão qual ele é e tem que ser – não apesar da fé, mas no meio dela.
Em 2 Coríntios 4:8-18, Paulo não tenta suavizar essa realidade. Ele não espiritualiza a dor, nem a ignora. Ele a nomeia.
⁸ De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados;⁹ somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos. ¹⁰ Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nosso corpo. ¹¹ Pois nós, que estamos vivos, somos sempre entregues à morte por amor a Jesus, para que a sua vida também se manifeste em nosso corpo mortal. ¹² De modo que em nós atua a morte; mas em vocês, a vida. ¹³ Está escrito: “Cri, por isso falei”. Com esse mesmo espírito de fé nós também cremos e, por isso, falamos, ¹⁴ porque sabemos que aquele que ressuscitou ao Senhor Jesus dentre os mortos, também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará com vocês. ¹⁵ Tudo isso é para o bem de vocês, para que a graça, que está alcançando um número cada vez maior de pessoas, faça que transbordem as ações de graças para a glória de Deus. ¹⁶ Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia, ¹⁷ pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. ¹⁸ Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno.
2 Coríntios 4:8-18
Nós somos pressionados.
Nós ficamos perplexos.
Nós somos perseguidos.
Nós ficamos abatidos.
O Caminho com/ de Jesus não nos retira da realidade da vida, mas nos sustenta dentro dela.
Somos pressionados.
A pressão que Paulo mostra aqui não é sobre um momento isolado, é mais um peso contínuo. São as demandas, as responsabilidades, os limites sendo testados. É a sensação de que talvez não vamos conseguir suportar. A pressão sussurra desânimo, cansaço, vontade de parar.
Mas não desanimamos.
A pressão não é suficiente para tirar o ânimo que vem do Espírito de Deus. A pressão vem de fora, mas o ânimo vem de dentro, do Espírito que habita em mim. O agir Dele em mim é capaz de aguentar a pressão. Eu não. Ele sim.
Ficamos perplexos.
Há situações que não se resolvem com respostas rápidas. Ponto. Por mais que tentemos, queiramos, façamos por resolver. Há perguntas que permanecem abertas. A perplexidade nos coloca diante do silêncio, da confusão, da limitação do nosso entendimento. E, aos poucos, ela, sim, tenta nos empurrar para o desespero – para a sensação de que nada faz sentido.
Mas não ficamos desesperados.
A ausência de respostas não precisa significar ausência de esperança. Não para aquele que tem o Pastor ao lado, no caos. Podemos não entender o que Deus está fazendo, mas ainda assim confiar em quem Ele é.
Somos perseguidos.
Nem sempre isso vem em forma de grandes oposições. Sim, também. Porém, às vezes vivemos a rejeição sutil, a incompreensão, o afastamento, o trabalho não considerado. A sensação de que “o jogo não está justo”. Aquele momento em que se precisa de um ombro amigo, de um socorro, um suporte – e não se encontra nada. A perseguição toca no lugar da sensação do abandono. Injusto abandono.
Mas não abandonados.
Deus não se retira quando nos sentimos deixados e injustiçados. Sua presença não depende da nossa percepção. Mesmo quando tudo ao redor parece vazio, Ele permanece. Aleluia.
Somos abatidos.
É “tanta realidade” que por vezes nosso corpo se cansa demais, a alma pesa demais e a fé, assim como a esperança, parecem não ter espaço mais. O abatimento é esse lugar onde a força falha, onde não conseguimos nos manter de pé por nós mesmos. É quando surge a sensação de não aguentar, não ver luz no fim do túnel. Sensação de fim.
Mas não somos destruídos.
Ser abatido não é o mesmo que ser derrotado. Ainda há vida, sim. Há o agir silencioso de Deus, que sustenta o que parece prestes a ruir. Ele mantém nossa estrutura. Ele.
Esse, então, é o Caminho de Jesus até a cruz. E Ele pede que o trilhemos também. No mínimo, é bastante desafiador lembrar que, apesar de vitórias e dias bons, o cristão foi chamado por Jesus para continuar sendo pressionado, continuar se percebendo perplexo diante de algumas realidades, continuar passando por momentos de perseguição e abatimento. A promessa nunca foi ausência de dor, mas presença fiel do Senhor no meio dela. Mas a maravilha do Caminho, não podemos esquecer, é que, como que em um mistério, essa dor não é apenas suportada, ela é transformadora. É nesse caminho difícil, não no atalho, que somos moldados. É aqui que algo em nós é ajustado, aprofundado, amadurecido. É aqui que essa vida de Cristo começa a se tornar mais visível em nós.
Sim, o texto é plural. Nós estamos. Nós somos. Nós vivemos. Nós. Existe um consolo que também vem da presença de outros que permanecem aqui. Gente que não explica tudo, que não corrige a dor, mas fica. Que chora junto. Que sustenta em silêncio. (Não como os amigos de Jó, que começaram até bem, mas passaram a dar respostas rápidas demais.) Como amigos de alma que procuram amar servindo, compartilhando o peso sem anulá-lo, pois sabem que é real.
Ainda estamos em batalha. Ainda existem dias difíceis. Ainda existem perguntas sem resposta. Ainda existem momentos em que tudo parece pesado demais. Mas não sucumbimos! Não porque a dor é leve ou o caminho fácil, mas porque o Espírito testifica ao nosso espírito que Cristo está sendo formado em nós. Isso muda o jogo. Não muda as circunstâncias. Mas muda o que está sendo construído dentro de nós enquanto atravessamos cada uma delas.
Ah, como as crianças e famílias precisam da vida de Jesus!! Como nós, educadores, precisamos Dele!
Ó Deus, nos ensina a encararmos o Caminho! Nos sustente, Senhor! Obrigada por ter vencido a cruz para sempre! Louvado seja teu nome eternamente!
Uma Páscoa cheia de significado e esperança a todos!
Débora Vieira é psicóloga parental e editora da Rede Mãos Dadas.

O apóstolo Paulo falou para nós.
Tão atual e verdadeiro. Essa reflexão nos ajuda a ver e sentir o quanto Jesus é maravilhoso.
Obrigado Débora.
Sim, o apóstolo Paulo trilhou este Caminho também e descreveu tão claramente o processo, não é? Como é libertador enxergar e dar nomes ao que passamos, como cristãos. Jesus viveu isso primeiro e agora é a nossa vez. Que Ele nos sustente. Obrigada pelo comentário, Artur!
Débora, reflexão maravilhosa! Podemos sentir!
Abraço
Glória a Deus, Regina! Jesus nos ensina o Caminho! Ele trilhou! Nós podemos. Aleluia!