O desafio da inclusão de crianças com deficiência na igreja – Parte 2

O desafio da inclusão de crianças com deficiência na igreja – Parte 2

Reproduzimos abaixo um trecho do livro “Deficiente – O desafio da inclusão na igreja” escrito pela missionária Brenda Darke, inglesa, radicada na Costa Rica. O livro é fruto da preocupação de longa data da autora que não aceita ver uma igreja que reproduz os preconceitos culturais e se distancia da prática do amor exigido por Jesus.

 

Deficiência: perda ou pluralidade?

Por Brenda Darke

Um dos conceitos que associamos à deficiência é o de “perda”, uma vez que muitas pessoas com deficiência perderam sua habilidade de falar, mover-se, ouvir ou ver o mundo em torno delas. Acreditamos também que o nascimento com alguma dessas deficiências torna a pessoa diminuída, como no caso de alguém com síndrome de Down. Provavelmente esse indivíduo não chegará a frequentar uma universidade, “perdendo” assim a oportunidade de se tornar um profissional. Ou, recorrendo à figura da caminhada, como alguns não podem andar, estarão perdendo uma experiência agradável. Não é obvio que essas pessoas vivem experiências de perda? Podemos imaginar que sua vida deve ser triste ou frustrante.

No livro Uma igreja de todos e para todos, a Rede Ecumênica para a Defesa da Pessoa com Deficiência (Ecumenical Disability Advocates Network, ou EDAN) discute a seguinte questão: é pertinente usar em nossa linguagem o termo “deficiência” associado à perda, apesar de ser essa uma etapa da peregrinação das próprias pessoas com deficiência? Não seria mais adequado associá-la ao conceito de pluralidade?

Pluralidade é, na verdade, parte da realidade em que todos vivemos. Ninguém é igual a ninguém; cada pessoa é única. Deus nos criou individualmente. A diversidade é nossa experiência comum. O que pesa para nós é a amplitude da diversidade. A compreensão de que alguns nascem sem braços, ou que falam por sinais e gestos, em vez de usar palavras, deve ser parte da nossa formação como cidadãos do reino de Deus.

Desde muito jovens, ficamos fascinados por nossa aparência e pela moda, e temos dificuldade em aceitar diferenças corporais. Especialmente quando somos adolescentes, nosso desejo é nos mostrar exatamente como os nossos heróis da televisão ou do cinema, ou iguais a nossos amigos. Durante a juventude, talvez não gostemos de ser diferentes, mas na maturidade é mais provável dar valor à diversidade.

A particularidade de conviver com uma deficiência não está tanto no sentimento de perda, mas na possibilidade de uma peregrinação diferente, que envolve uma caminhada e um caminho diferenciados. Nessa peregrinação, teremos tempo para o diálogo, espaços para uma boa conversa e momentos de compartilhar experiências diversas. Encontraremos mais oportunidades para conhecer outras pessoas do que em uma viagem rápida de trem ou de avião. Teremos mais tempo para nos conhecer a nós mesmos e a Deus, nosso criador.

O propósito da caminhada

Este livro serve para todos aqueles que querem ser peregrinos junto a pessoas que apresentam alguma deficiência. O objetivo não é apenas atingir essas pessoas para ajudá-las (ainda que às vezes elas precisem de ajuda), mas, sim, andar com elas em direção a Deus e ao seu reino. Bunyan narra que, em seu caminho, o Peregrino queria chegar à cidade celestial: nada menos do que alcançar a plenitude da vida eterna com Deus. Esse é também o nosso objetivo: começando aqui e agora, terminar por alcançar tudo aquilo que Deus tem guardado para nós. Mas, como está escrito: As coisas que olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem penetraram o coração humano, são as que Deus preparou para os que o amam (1Co 2.9).

Se quisermos caminhar ao lado de pessoas com deficiência, teremos de alterar nossos passos. Isso significa que devemos começar fazendo uma revisão de nossa vida, valores e práticas. Precisamos avaliar os valores que formam a base de nossa vida. Essa revisão é relevante porque afeta nossas atitudes pastorais e a dinâmica da nossa igreja. Nossa visão deste mundo, bem como a visão do mundo que está por vir, devem ser testadas. Elas estão realmente afinadas com a Palavra de Deus?

É urgente reconhecer que todos nós, se fazemos parte do corpo de Cristo, somos iguais. Todos nós somos “peregrinos”- com ou sem deficiência. O que varia é apenas a forma, o ritmo ou o estilo da progressão. O caminho da deficiência nos levará por rotas diferentes, talvez de maneira mais lenta, mas nos dará a oportunidade de desfrutar de novas companhia e de uma outra paisagem.

Ao longo da história, existiram no mundo pessoas com deficiência que, como nós, buscaram a Deus e queriam transitar por seus caminhos. Moisés foi um deles, Jacó foi outro; ambos serviram fielmente ao Senhor. Podemos imaginar os milhares de servos de Deus que, com alguma deficiência, viveram essa realidade ao longo dos séculos e até hoje.

O difícil para nós que não vivenciamos nenhuma deficiência é abraçar a pluralidade de pessoas e suas experiências de vida. É compreender que todos somos criação de Deus. Para incluir a criança ou o adulto com deficiência, devemos expandir nossa imagem restrita de ser humano e mostrar-lhes o amor de Deus, genuíno e sem exceção. Caso contrário, sua exclusão pode ser um triste sinal de que a igreja não está seguindo os autênticos passos de Jesus.

 

Leia o último trecho: Peregrinação pessoal da autora

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